Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010
Fátima
Adão Cruz

O amigo J. Mário Teixeira dedicou-me um vídeo do Padre Mário de Oliveira, sobre Fátima. Eu disse-lhe que ele já conhecia os meus gostos e desgostos. Agradeci, não porque eu tenha prazer em coisas amargas ou em fenómenos sociais negativos, mas porque se trata de um impressionante exercício de lucidez e de uma acutilante denúncia de uma das maiores patranhas do século XX.

Um vídeo que põe em destaque a abissal diferença entre a mentalidade obsoleta que vigora dentro da igreja e a sanidade mental de um padre que luta, à sua maneira e dentro da sua crença, contra as trevas do obscurantismo.

Em nada me interessa a Igreja católica em si mesma. Porém, como cidadão, não posso ficar ao lado dos fenómenos que afectam, positiva ou negativamente, a sociedade e a humanidade. Desde há muitos anos que me arrepia o paganismo que se fabricou em Fátima, a monumental impostura que se ergueu no nosso país, e a empresa lucrativa em que a fé se transformou.

Sou médico há quase meio século, tive na minha frente toda a espécie de pessoas, desde a mais ignorante à mais sábia. Respeito tanto os ignorantes como os sábios, os cultos e os incultos, mas não tenho o mínimo respeito nem contemplação pela ignorância e pela incultura. Tenho amigos e doentes que são padres e freiras, a quem respeito e que me respeitam também. Mas não sinto respeito pelo trabalho de quem quer que seja que se dedique, de uma maneira ou de outra, a cultivar a ignorância, a escamotear a verdade e a anular a razão. O maior crime que se pode cometer contra o Homem não é matá-lo mas tapar-lhe os olhos. Ao matar o Homem não se mata a ideia. Ao tapar-lhe os olhos mata-se o Homem e a ideia.

A mensagem do verdadeiro Cristo, a mensagem de libertação do Homem nada tem a ver com isto. Ao contrário, a igreja explora e expande todos aqueles conceitos arcaicos que sempre contribuíram fortemente para a exploração e a repressão, liderando falsamente e sofismaticamente a luta pelos fracos, no terreno fértil de uma humanidade sofredora, aterrorizada e inculta, vítima maior desse mesmo poder que sustenta e sempre sustentou a Igreja.

Entre a mentalidade e a verdade de monsenhores, rotulados de catedráticos, entre as habilidades retóricas, os rendilhados e emaranhados raciocínios de homens inteligentes dentro da igreja que até escrevem nos jornais e falam nas televisões, entre as palavras de homens bons dentro da igreja, palavras, no entanto, fundidas numa incapacidade de definição e de posicionamento quanto à etiopatogenia dos males da humanidade e à crítica da Igreja, entre tudo isto, repito, e a reflexão, a coragem, a lucidez, a clareza e a serenidade do Padre Mário de Oliveira vai um abismo.

Nesse vídeo, duas coisas me impressionaram sobremaneira. A primeira é uma pergunta a que automaticamente somos levados, e que se encontra implícita em todo este relato: Será possível que homens inteligentes dentro da igreja embarquem nesta tão primária encenação? Ou andam a fazer de conta? A segunda é a abordagem de uma vertente da qual eu não me havia apercebido. Duas crianças “videntes”, levadas a uma fragilidade física e mental imposta por terrores, medos e sacrifícios inqualificáveis, que lhes facilitaram a morte prematura. Uma terceira criança enclausurada e condenada a prisão perpétua.

Penso que muitos milhares já viram com ansiedade e agrado esta esclarecedora e corajosa denúncia contra uma das maiores fraudes do século, co-responsável - a par de tantos outros mecanismos de anestesia mental que o poder detém ou inventa - pelo atraso do nosso povo e da nossa sociedade. Se não viram vejam que vale a pena.

A Igreja católica historicamente enrodilhada num mar de escândalos e de obscuras e complexas ligações, adquiriu tal poder que já perdeu todos os escrúpulos, já não consegue voltar a trás e dar a mão à palmatória, nem se importa que o produto que fabrica seja o antídoto de tudo aquilo que pretende proclamar. Com efeito, a Igreja deve ser hoje a maior fábrica de ateus.

(Ilustração de Adão Cruz)



publicado por Carlos Loures às 16:30
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5 comentários:
De augusta.clara a 29 de Setembro de 2010 às 17:16
Estou 100% contigo nesta luta.Eu já tinha visto o vídeo e o abismo que referes é assim mesmo:incomensurável. Isto foi um grande crime contra aquelas crianças.Continua, Adão, porque tu, também, fazes a diferença entre um homem bom e um bom homem. Destes últimos há por aí aos pontapés.


De augusta.clara a 29 de Setembro de 2010 às 19:00
Na América disseminaram o vírus do sarampo para matarem os índios, em Portugal o do obscurantismo para assassinarem estas três (sim, as três) crianças. Fora a gente que veio a seguir.


De Luis Moreira a 29 de Setembro de 2010 às 19:01
O meu pai, foi lá em peregrinação no dia em que o "SOL" bailou, mas ele não viu nada,o meu pai que criou, sozinho, 6 filhos, era o único na multidão que não teve acesso ao milagre. Ele andou metade da vida furibundo a pensar que era um pecador e tanto...


De augusta.clara a 29 de Setembro de 2010 às 19:25
Sabes, Luís, às vezes, até já me custa falar nestas coisas, tal é a força que os disseminadores da ignorância continuam a ter. É uma inultrapassável sensação de impotência que uma pessoa sente porque todos os poderes, não só o da igreja, continuam a colaborar nesta mentira. E lá vai tudo para Fátima, como se fosse a coisa mais natural deste mundo.


De maria monteiro a 29 de Setembro de 2010 às 23:26
Padres destes a igreja não quer, enxota-os, manda-os em missão para os confins do mundo, ou ficando por cá colocam-nos na situação de padre sem oficio pastoral.
Já li dois livros do Padre Mário “Quando a Fé move montanhas” e “Fátima nunca mais”. Foram célebres as suas Homilias da PAZ proferidas em 1973.
Fátima lança as datas das festas e as paróquias organizam as excursões (desculpem peregrinações) Fátima é a galinha dos ovos de ouro para os cofres da igreja.

Normalmente vou a Fátima uma vez por ano, fora de época e em traje de passeio. Fico no Hotel Fátima ali bem junto à capelinha. À noite dá para ir passear pelo recinto, ver as estrelas... No dia seguinte vagabundando por aí, almoço no hotel e partida para Lisboa... tudo sem pressas.
Nunca entrei na igreja nova e não está nos meus planos fazê-lo.


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