Sexta-feira, 16 de Julho de 2010
Joam Roiz de Castel-Branco, um trovador do idioma galego-português, no Terreiro da Lusofonia
Desconhecem-se as datas precisas de nascimento e morte de Joam Roiz de Castel-Branco. Julga-se que terá vivido entre finais do século XV e as primeiras décadas do séc.XVI. Fidalgo da Casa Real de D.Manuel e, depois, da de D.João III, foi em 1515 nomeado contador da fazenda da Beira.

De acordo com o que hoje se sabe, a obra poética de João Roiz de Castell - Branco consiste em quatro composições incluídas no Cancioneiro Geral ,de Garcia de Resende. Duas são trovas com contornos epistolares: numa, dirigida a um amigo em Alcácer Ceguer, o autor traça um quadro dos prazeres da vida em Portugal, contrapondo-lhes riscos vários da vida militar no Norte de África; noutra, endereçada a um companheiro em Lisboa, faz o elogio do retiro rústico em terras beirãs, que opõe aos sobressaltos da vida do paço e às inglórias agruras das expedições ultramarinas. Este texto deve ser relacionado, com outros do Cancioneiro Geral, e com a tradição de louvor da aurea mediocritas imitação dos clássicos que seria com frequência cultivada pelos poetas do séc. XVI.

As outras duas peças são uma glosa a um vilancete castelhano  e a cantiga “Senhora, partem tam tristes”, de grande beleza formal e que desenvolve um tema recorrente no Cancioneiro Geral: o da partida. Joam Roiz de Castel-Branco, um dos construtores do galego-português, está, de pleno direito, neste Terreiro.

Fernando Correia da Silva apresenta-nos uma brilhante biografia ficcionada deste trovador. _________________________________
Fernando Correia da Silva

Paço em Sintra onde D. João II

foi aclamado rei.

(PERTURBANDO O REPOUSO DO POETA)


- Ó Joam Roiz de Castel-Branco:

sei que viveste na segunda metade do século XV. Sei que foste aplaudido trovador na corte de D. Joam II, o Príncipe Perfeito, monarca impulsionador dos Descobrimentos Portugueses. Sei que ao abandonares o Paço foste viver na cidade da Guarda, onde te dedicaste à agricultura e à contabilidade. Sei que hoje repousas no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. Peço desculpa mas vou perturbar o teu repouso com a minha agitação dos séculos XX e XXI.

Reparo que estás acordando, já te espreguiças. Resmungas:

- Que quereis de mim, ó Mafoma?

- Mafoma? Quem, eu?

- Sim, Mafoma, mouro, infiel.

- Joam Roiz, mouro eu cá não sou. E infiel também não. Antes pelo contrário, sou um fiel admirador da tua poesia.

Volta a espreguiçar-se mas corrige a acintosa saudação:

- Que quereis então de mim, ó perturbador?

- Quero ouvir alguns dos teus poemas.

- Ai sim? Vou então dizer-vos um poema que enviei a António Pacheco, veador da moeda de Lisboa.

- Veador? Hoje já não se usa essa palavra.

- Estais insinuando que as palavras morrem?

- Ou morrem ou transformam-se. Hoje diríamos vedor ou inspector da moeda de Lisboa.

- Mesmo depois da minha vida ainda estou a aprender coisas novas. Grato, gosto disso...

- Mas porquê um poema para António Pacheco?

- Porque ele mandou-me uma carta motejando de mim. E a melhor forma de revidar era mandar-lhe um poema.

- Estou a perceber. E como era o poema?

- Como era, não! Como é! Já vos digo.



Declama:

- Já me nam dá de comer

senam minha fazendinha;

rei nem roque nem rainha

nam queria nunca ver.

O pagar das moradias

é o que mais contenta,

o despachar da ementa,

as madrugadas tam frias;

trabalhar noites e dias

por ser na corte cabidos,

e, os tempos despendidos,

ficar com as mãos vazias.

Interrompo:

- Ó Joam Roiz, não era esse o poema que eu queria ouvir.

Fica irritado:

- O que eu começo, acabo sempre, nunca paro a meio caminho.

- Pronto, não leves a mal, avança!

E ele avança:

Armadas idas d'além

já sabeis como se fazem:

quantos cativos lá jazem,

quantos lá vão que nam vêm!

E quantos esse mar tem

somidos que não parecem,

e quam cedo cá esquecem,

sem lembrarem a ninguém!


E alguns que sam tornados,

livres destas borriscadas,

se os is ver às pousadas,

achai-los esfarrapados,

pobres e necessitados

por mui diversas maneiras

por casas das regateiras

os vestidos apenhados.


Por isto, senhor Mafoma,

tresmontei cá nesta Beira,

por tomar a derradeira

vida, que todo o homem toma;

porque há lá tanta soma

de males e de paixam

que, por não ser cortesão,

fugirei daqui té Roma.

Pensei que já tínhamos chegado ao fim, porém ele remata ainda:

Agora julgai vós lá

se fiz mal nisto que faço:

em me tirar desse Paço

e mudar-me para cá;

pois é certo que, se dá

algum pouco galardam,

lança mais em perdiçam

do que nunca ganhará.



Amália Rodrigues canta este nosso trovador com música de Alan Oulman:



- Joam Roiz, posso agora dizer-te qual dos teus poemas eu queria ouvir?

- Dizei lá!

- Queria ouvir a tua CANTIGA, PARTINDO-SE.

- E porquê essa e não outra?

- Porque me seduz.

- E por que vos seduz?

- Não sei o que responder-te.

- Sei eu o motivo da sedução. Deus expulsou Adão e Eva do Paraíso por terem mordido e comido a maçã do pecado. Sabeis disso?

- Sim, já ouvi falar disso.

- Os descendentes de Adão e Eva, por vergonha tapam as suas partes pecaminosas mas não se aguentam e estão sempre a provar e a comer a maçã do pecado. Que nome dais a esse comportamento?

- Contravoltas da PAIXÃO?

- Contravoltas da PAIXÃO? Não está mal visto. Na minha CANTIGA, PARTINDO-SE um cavaleiro apaixonado, em vésperas de partir talvez para o além-mar, despede-se da bem-amada. Está tudo dito ou é preciso dizer mais alguma coisa?

- Precisas dizer muito mais, ó Joam Roiz... Antes de ti, na corte os jograis tocavam e cantavam. Mas depois a poesia palaciana, da qual és um exemplo típico de trovador, limitou-se a declamar. Há porém um golpe de mágica na tua CANTIGA, PARTINDO-SE porque ela consegue incorporar a música no próprio texto. De tal forma que, no meu século XX (e já lá vão cinco séculos...) Alain Oulman sobre ela compôs melodia que Amália Rodrigues interpretou. E o mesmo aconteceu com o nosso compositor e cantor Adriano Correia de Oliveira. Pergunto: que mágica foi essa que tu usaste?

- Não foi mágica, foi engenho.

- Explica lá esse engenho.

- A CANTIGA é toda em redondilha maior, sete sílabas. E todos os versos têm dois acentos tónicos, ora na 3.ª e 7.ª sílaba, ora na 4.ª e 7.ª ora na 5.ª e 7ª. ora isto, ora aquilo. Desta forma consegui eu criar um ritmo avassalador.

- Está tudo explicado?

- Não, não está. Há também um engenho especial para as rimas. As dos primeiros quatro versos, emparelham a rima do 1.º com a do 3.º e a do 2.ª com a do 4.º. E essas rimas encontram eco nos últimos quatro versos. E os cinco versos que ficam pelo meio, também rimam entre eles, o 5.º com o 7.º e o 8º., o 6.º com o 9.º.

- É tudo?

- Não, ainda não. Falta apontar o advérbio tam, surda pancada que antecede tristes, termo este que domina toda a CANTIGA. Tam irrompe dez vezes. Duas nos quatro primeiros versos. Cinco nos cinco seguintes; cinco em cinco é coincidência que favorece puxar a trela de cinco adjectivos. Mais informo que os três derradeiros tam surgem nos últimos quatro versos. Percebeis a intenção?

- Não sei. Canta lá essa tua CANTIGA para eu verificar se percebi.

E ele canta:

CANTIGA, PARTINDO-SE

Senhora partem tam tristes

meus olhos por vós, meu bem,

que nunca tam tristes vistes

outros nenhuns por ninguém.



Tam tristes, tam saudosos,

tam doentes da partida,

tam cansados, tam chorosos

da morte mais desejosos

cem mil vezes que da vida.



Partem tam tristes os tristes

tam fora d'esperar bem,

que nunca tam tristes vistes

outros nenhuns por ninguém.



- Percebi e estou deliciado, ó Joam Roiz!



Dilui-se o trovador e as suas palavras começam a converter-se em água fresca. Antes que decorra um século LUÍS DE CAMÕES virá beber desta fonte.

Ouçamos agora a voz de Amália Rodrigues, com o poema de Joam Roiz de Castel-Branco e música de Alan Oulman:





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publicado por Carlos Loures às 08:00
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1 comentário:
De Luis Moreira a 24 de Agosto de 2010 às 19:26
Joan Roriz de Castel-Branco, tem uma pedra,com o poema gravado, por baixo de uma bela árvore no Jardim de baixo de Castelo Branco.Esta deve ser a primeira cantiga que decorei na totalidade e que ainda hoje sei de cor.


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