Sábado, 23 de Abril de 2011
O LIVRO, por João Machado

Se entendermos a cultura como todo o conhecimento sistematizado, referente aos vários aspectos da vida do indivíduo e da sociedade, que se transmite entre as pessoas, grupos e nações, e de geração em geração, sem dúvida que o livro é o maior veículo cultural. Pequeno (umas vezes mais, outras vezes menos), quase sempre portátil, fabricado em material que permite o seu manuseamento, desde a antiguidade que se conhecem exemplos do seu fabrico em série, como é o caso dos livros dos mortos egípcios, que tinham por objectivo guiar os mortos no além, com orações e exorcismos, e que os sacerdotes fabricavam e negociavam.

 

A definição de livro que se encontra nos dicionários quase sempre dá relevo prioritariamente ao seu aspecto material. O Dicionário Aurélio, em primeiro lugar, define livro como uma “reunião de folhas ou cadernos, soltos, cosidos ou por qualquer outra forma presos por um dos lados, e enfeixados ou montados em capa flexível ou rígida”. José Pedro Machado, no Grande Dicionário, não se afasta muito: “Porção de cadernos ou de várias folhas de papel, pergaminho, impressas ou escritas à mão, cosidas juntamente e que formam um volume”. Para o Concise Oxford Dictionary, o primeiro significado de book é “Portable written or printed treatise filling a number of sheets fastened together (forming roll, or usually with sheets sewn or pasted hingewise & enclosed in cover). Para o Bordas, livre = “assemblage d’un grand nombre de feuilles où est imprimée une œuvre écrite et qui sont réunies sous une couverture commune.” Há evidente semelhança entre as quatro definições. Contudo, talvez sejam demasiado estritas.

 

Eric de Grolier, na sua Histoire du Livre (PUF – Presses Universitaires de France, Paris, 1954), depois de afirmar que as origens do livro se confundem com as da linguagem, por um lado, e com as da arte, por outro, recorda que nas sociedades que desconheciam qualquer forma de escrita, a transmissão de pensamento era unicamente por via oral. Em sentido estrito, não tinham livros. E a seguir chama a atenção para o facto de que a Ilíada e a Odisseia eram cantadas pelos aedos muitos anos antes de terem sido passadas a escrito. Parece-lhe arbitrário considerar que não existiam como livros antes da operação material da sua transcrição, a qual fixou os textos respectivos, mas também as deformou.

 

O livro como tal parece datar do início do primeiro milénio antes de Cristo. Evoluiu ao longo do tempo em função do tipo de suporte utilizado, cujo aperfeiçoamento facilitou os seus fabrico e difusão, Da pedra, madeira, tecido, passou-se ao papiro (que já existiria no Egipto desde o III milénio A.C.), ao pergaminho (século III A. C.) e finalmente ao papel (apareceu na China, no século II da nossa era). No Dicionário Etimológico, de José Pedro Machado, lê-se que o termo livro, provem do latim libru-. Liber  era um termo utilizado para designar a casca das árvores. E Robert Escarpit, em A Revolução do Livro, logo ao início, recorda que o inglês book e o alemão buch têm a mesma raiz indo-europeia que o francês bois. Estes exemplos servem para dar uma ideia sobre a difusão que o livro tinha em épocas tecnologicamente menos evoluídas.

 

Actualmente estamos perante nova revolução, a do livro electrónico. Ainda é cedo para se poder avaliar os seus efeitos. A seguir vamos apresentar dois trabalhos, um dos Carlos Loures, outro da Carla Romualdo, já anteriormente saídos no Estrolabio, que dão contributos, cada um a seu modo, sobre a situação actual do livro e as perspectivas futuras. E depois, neste Dia Mundial do Livro, reproduzimos respostas de vários dos nossos colaboradores ao desafio de se pronunciarem sobre os 10 livros do século XX que levariam para uma ilha deserta. O que nos vai obrigar a estender o Dia Mundial para o dia seguinte. O que realmente não é mau.

 



publicado por João Machado às 09:00
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