Sexta-feira, 24 de Dezembro de 2010
Natal e marketing - Natal é marketing
Carlos Loures

Natal e marketing - Natal é marketing – um simples acento agudo colocado sobre o e, transforma a conjunção em tempo verbal e converte dois conceitos que desde há muitos anos andam juntos numa afirmação que, não sendo toda a verdade, consubstancia toda uma verdade.


Não vou aqui repetir a consabida história da Coca Cola que pegou no São Nicolau lhe vestiu um traje vermelho e o transformou numa «tradição». Foi em 1929, no Natal, dois meses após a quinta-feira negra de 24 de Outubro, do crash da bolsa novaiorquina. As vendas haviam caído vertiginosamente, era preciso um golpe de asa e… voilá! - sai um Pai Natal. As tradições agora são assim – os touros de morte em Barrancos começaram em 1928 e também já são «uma tradição». Não há paciência para deixar passar os séculos – queremos uma tradição, já!

Mas estávamos a falar do Pai Natal, da Coca-Cola, do marketing…Acredito que para muita gente o Natal seja algo mais do que as iluminações, os centros comerciais, as prendas, mas...

O dia da Mãe, o dia do Pai. O dia dos Namorados, o dia das Bruxas... maneiras de animar as vendas, marketing, numa palavra. O Natal é o dia da Família – como se nos outros dias todos não houvesse família, amor fraterno, paz… Coisas que vão para o contentor do lixo com os papéis coloridos, as fitas, as embalagens e algum pseudo sentimento de solidariedade, de amor familiar, essas coisas.

Não tenho o hábito de me auto-citar, mas desta vez parece-me oportuno repetir o que há meses atrás aqui disse sobre a incontinência consumista que, neste período, se torna particularmente aguda. Trancrevo parcialmente o texto  "O Consumo consome o amor".


Consumir. - gastar, destruir, extinguir, corroer até completa destruição.


Recorri ao dicionário do meu saudoso amigo José Pedro Machado e, mais uma vez, não me deixou ficar mal. A consulta foi à palavra Consumir. A entrada diz: «v. tr. (do lat. Consumere). Gastar, destruir, extinguir, corroer até completa destruição. Enfraquecer, abater.» E continua com muitas outras acepções terminando com «Enganar, iludir». Pelo meio, tem as acepções mais comuns - «Dar extracção, procurar géneros alimentícios, artigos fabricados, etc.\\ Despender, gastar» e outras menos comuns «Matar, assassinar. Devorar em silêncio. E entra no foro da liturgia católica: «Desfazer a hóstia na boca. Receber (o sacerdote), na missa, o corpo e o sangue de Cristo, sob as espécies do pão e do vinho consagrados.» Está aqui a entrada quase toda, não escamoteei acepções importantes. Não esqueçamos, porém, que a primeira acepção, é sempre a mais importante - «gastar, destruir, extinguir, corroer…» Corroer até à completa destruição - uma boa definição do que é o consumo elevado à categoria de projecto de vida. (...)Na facilidade de comprar, reside o grande fascínio do consumo – mesmo que não tenhamos dinheiro vivo, podemos sempre utilizar cartões de crédito… Compra-se por impulso, o gesto de tirar os produtos das prateleiras e de os pôr no carrinho é gratuito. Só na caixa nos apercebemos do dinheiro que gastámos. Tem-se a falsa sensação de que as coisas não custam dinheiro.


Há relativamente poucos anos, vivíamos numa economia de poupança – as roupas usavam-se enquanto duravam, os géneros alimentícios não tinham prazo de validade, sendo esta determinada pelo bom ou mau aspecto que apresentavam, as pastas dentífricas eram gastas até ao fim (havia uns artefactos, primeiro em madeira e depois em plástico, para as espremer), se saíamos de uma sala, apagávamos as luzes… Era uma economia e uma cultura de penúria, mesmo para as famílias «remediadas», aquilo a que agora se chama classe média. Hoje, vê-se pessoas com graves problemas económicos, mas incapazes de economizar. Não sabem. Nem relacionam o facto de deixarem todas as luzes acesas, de se desfazerem de roupas em bom estado (mas que «já se não usam»), com as dificuldades por que passam e com o facto de a meio do mês já não terem dinheiro e começarem a viver com a conta-ordenado e com o crédito dos cartões levados até ao limite. Nem com o número de chamadas que fazem com o telemóvel, muitas delas (para não dizer a maioria) dispensáveis. Troca-se de carro, embora aquele que se larga possa ser melhor do que o que se adquire. E por aí fora. Consome-se.


Um dos motivos para o aumento do número de divórcios é o facto de ao período (por vezes, prolongado) de namoro, em que os pais continuam a resolver os problemas básicos, se sucede a chamada «vida real» - contas para pagar, coisas para comprar – assuntos «mesquinhos» do dia-a-dia, que dão lugar a discussões mesquinhas e, sobretudo, ao choque de vontades pouco treinadas para serem contrariadas, porque desde o berço foram habituados a não aceitar o não como resposta. E não é uma palavra para ser usada, como qualquer outra. O confronto de vontades, gera discussões, desilusões e a estas seguem-se muitas vezes os divórcios. Habituadas como estão agora as pessoas aos produtos descartáveis, deitam fora uma relação e começam outra. A geração dos anos 60, a minha, tem responsabilidades nesta disfunção. Criámos os filhos seguindo o princípio de que era proibido proibir. Uma educação, que quase se traduziu numa ausência de educação, criou estes cidadãos que, generalizando (o que é perigoso) podemos dizer que é uma geração que não luta pelas coisas, não luta inclusive pelo amor – gasta o amor como se fosse um produto descartável.

O consumo também consome o amor.
_____________

Bom Natal para todos os amigos do Estrolabio. Não gosto do Natal mas, como dizia um conhecido homem do futebol, «vocês sabem o que eu quero dizer».


publicado por Carlos Loures às 12:00
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3 comentários:
De augusta.clara a 24 de Dezembro de 2010 às 15:58
Eu sei e, por isso, só desejo bom ano...mas é para a semana. Este texto é daquelas verdades que nos enchem o peito de ar. Ainda bem que o repetiste, senão morremos sufocados.


De Luis Moreira a 24 de Dezembro de 2010 às 16:57
Eu gosto da parte familiar, a minha família esteve sempre separada foi sempre no natal que nos juntamos, e tenho boas recordações, mas este consumismo é um hábito pouco condizente com o Natal. A verdade é que não gosto de comprar, só por impulso.


De maria monteiro a 24 de Dezembro de 2010 às 18:21
e se formos perguntar a quem trabalha nos centros comerciais, nas lojas, nas pastelarias. A quem está horas e horas em pé a fazer embrulhos de empreitada.... o único desejo é chegar a casa na noite de hoje e descansar.


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