Sábado, 6 de Novembro de 2010
O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade –18 por Raúl Iturra.
(Continuação)

3. Haverá uma terceira via?
Questão que coloco após pensar e estruturar toda a pesquisa em torno da primeira via, o denominado seio bom, definido por Melanie Klein, citada no início deste texto. O seio bom dá esse agir directo do indivíduo com a sua ascendência. Normalmente, a vida social acontece dentro de uma relação directa entre ascendentes e descendentes, entre pais e filhos, em geral uma relação afectiva positiva e directa. O que infelizmente, nem sempre acontece, por ter de passar pelo entendimento de toda a organização da estrutura da personalidade, como tenho analisado ao estudar Klein, Freud , e Miller .

Mas, não basta, para entender o saber da criança, entrar na sua estrutura de personalidade, como vimos até agora. Diria mesmo que há um contexto social que conforma a mente da criança. Esse contexto passa pela análise da vida pública.

A primeira via, foi definida como sendo os pais dos mais novos; a segunda, os seus substitutos, analistas, docentes, parentes, vizinhos e amigos. Porém, além dos mais próximos, existe uma terceira via: o contacto paroquial ou comunal, a cidade, a vila, a Nação, o Estado. Sítios em que moram seres humanos que impingem saberes, orientam a vida social e acabam por ser legisladores. Contexto denominado Soberania Nacional que acaba por configurar também a mente cultural infantil, todavia, em minha opinião, é um elo necessário à análise para o estudo do, por mim denominado, processo de ensino – aprendizagem. Por outras palavras, a análise da vida sócio – política que nos governa deve também ser materializada.

Bem sabemos que o meu grande amigo Tony Giddens tem falado do caminho do meio ou da Terceira Via: comunista, conservadores e social-democratas ou terceira via na interacção político-social. Terceira via que triunfa na vida social. Uma terceira via que, ao que parece, tem também sucesso na observação do jovem e da criança. Uma terceira via um tanto confusa como resultado da social-democracia. A social-democracia desenvolveu o caminho para a mulher ser chefe do lar e tomar o rol masculino da sedução. Essa que a sua descendência observa. A mãe manda, a mãe trabalha, a mãe define, a mãe fixa as horas e o homem cala. É mandado calar. É atingido pela sua dificuldade de poder acarinhar. Essa terceira via recém aparecida para a mulher, envia o homem para a segunda via: ver, ouvir e calar. A emotividade doce e belicosa é assunto das mães, essa emotividade que faz cócegas e toma nas suas mãos os afazeres do lar e o cuidado da criança. Especialmente em países marianos, como tenho definido Portugal noutros textos. Países onde não há Redentor, apenas a sua mãe, dentro do mito da Igreja Romana Pontificada por um Polaco primeiro, um Alemão a seguir, esses denominados Papas que definem em palavras proferidas e em palavras escritas, os deveres das mulheres, dos homens e das crianças e a sua interacção, num texto denominado catecismo. Texto ditado pelo Pontífices , o mais recente de 1992, que nos artigos 4 a 5, páginas 471 a 478, diz "o papel dos pais na educação é de tal importância, que é impossível substitui-los", ou antes " o Pai das misericórdias quis que a aceitação, por parte da que Ele predestinara para Mãe, precedesse a Encarnação, para que, assim como uma mulher contribui para a morte ainda, também outra mulher contribuísse para a vida" . Podemos, pois, concluir que a terceira via da família parece ser a via que a cultura social do grupo anda a espalhar pelos costumes. As mães ficam em primeira fila e os pais, mais atrás. Porque se o Chefe dos chefes de Governo dos fieis romanos, espalhados pelo mundo Ocidental, manda a mulher ser a salvadora dos homens, estes seres masculinos não têm mais palavra a dizer que não seja o da educação dentro de ideias predefinidas ao longo de séculos e analisados os seus resultados por tantos cientistas, que acaba por existir uma maneira de ser que coloca o masculino na segunda via e o feminino dentro da via moderna ou terceira via. Por outras palavras, e Freud diz, o agir masculino no homem ou na mulher é relegado, enquanto o feminino, também no homem ou na mulher, é salientado ao ponto de fazer desse agir o comportamento de uma rainha que acaba por mandar em todos nós, desde que saiba ser feminina, isto é, amar, acarinhar, mandar, dizer. Saber ouvir e saber dizer. Ideologia cultural difícil para um homem aceitar, contra a qual não protesto apesar de ter passado a ser uma segunda via. Bem pelo contrário, penso que já era tempo de homem e mulher serem iguais, como tenho definido num artigo publicado no jornal em que escrevo. Essa primeira via que, como falei no começo, nunca foi completada, nunca foi acabada. De homem, tenho o comportamento mas nenhum poder sobre a minha descendência. Posso punir...se a mãe o solicitar; posso dar um sermão, se a mãe o pedir. Sorte a minha de entender, pelo meu trabalho de campo e a observação da juventude do Século XXI, que as palavras da doutrina, embora aceite e até assinada em Concordata por cima da lei positiva do Estado Nação de países aderentes, servem para ouvidos moucos pelo amor existente entre os cônjuges que fizeram a sua descendência no calor da paixão que, docemente, passa a amor e a seguir, a carinho. Que diga Freud, que diga Klein, que diga Ratzinger, porque Wojtila já falou! Eu digo que todos somos homens e mulheres no amor dos nossos descendentes e no deles por nós. Ficam sempre as férias para pensar no assunto. Felizes ideias para pais e filhos de ouvidos moucos, e para os outros também!

A terceira via parece ser apenas o debate de Freud, Klein e Miller e outros, não mencionados no texto. Nem Giddens, nem Wojtila antes, Ratzinger hoje, Lutero no passado pretérito, ou Calvino no passado perfeito, ainda Jaime Tudor desses tempos, sabem organizar os desenhos das crianças. Antes, desenham a sociedade dentro da que as crianças e jovens são abusadas, sexual e emotivamente. Estas ideias são as bases dos desenhos de que trata a sessão seguinte. Pretende-se com esta saber como é que as crianças aprendem.

Mas, é-me impossível acabar esta parte sem comentar sobre o abuso sexual e saber das crianças. Os mais novos pouco ou nada sabem sobre sexualidade, mas sentem desejo e procuram a sua satisfação. As crianças não são esses “anjinhos” que a mente cultural julga conhecer, nem de uma ética a concordar com o aprendido na catequese ou advertida pelos pais. Sabem por ter ouvido falar de sexualidade aos seus adultos, como tenho observado no meu trabalho de campo , ou por sentirem a libido trabalhar nos seus corpos. Libido que leva os mais novos a esfregarem-se entre eles ou ao destemido jogo de tentar agarrar os órgãos genitais dos amigos, com imenso prazer e em presença dos adultos, ou masturbarem-se às escondidas num grupo de amigos, com ou sem ejaculação, conforme a idade púbere ou pré púbere.

Um outro jogo que gostam de fazer é tentar tocar as mamas das raparigas ou jogar com o rabo delas, ou, o mais atrevido de tudo, beijá-las ou atirá-las ao chão montando-se sobre elas imitando movimentos de coito por largos minutos. Se isto acontece, é porque, como já foi explicado antes, ao falar dos analistas que teorizam sobre a libido, teorias usadas por nós ao longo do texto, essas crianças sentem prazer sexual e têm a urgência de o satisfazer de alguma maneira. Há os mais atrevidos, pelos seus nove ou onze anos, que seduzem meninas para ir com elas para a cama ou para palheiros ocultos. Factos narrados aos seus amigos pares e a mim próprio, por terem confiança comigo, por saberem que eu não ia admoestar nem repreender ou dizer aos seus adultos. Todos fomos crianças um dia e lembramos esse sentido do desejo, satisfeito de várias formas. A minha observação, tem-me conduzido a entender que na idade pré púbere, os meninos são mais activos e a sua libido não tem género preferido. O preferido é a confiança no amigo, para ninguém saber o que entre eles acontece; as meninas são mais passivas e permitem facilmente a aproximação dos rapazes. É-me quase impossível esquecer essa criança rechonchuda que estudei na Comuna de Pencahue, Província de Talca, Chile, apetecida de forma erótica pelos seus amigos; o que ele gostava, esse Yarin de 8 anos em 1999, rapaz prostituído pelos adultos na casa dos homens como é denominada entre o clã Picunche dos Mapuche, que habitam Pencahue. Ele e o seu amigo da alma, Marcelo, eram sempre convidados para a casa dos homens, na que eram sodomizados. Não me parece correcto dizer abusados, apesar de a lei proibir trato sexual com menores, definido como delito de pedofilia, tema que já abordei noutros textos, especialmente no livro Maria de Botalcura, escrito conjuntamente com a minha irmã, a Dra. Blanca Iturra. Não é favorecer a pedofilia. Os actos pedófilos são uma felonia, punida por lei, pelo menos na União Europeia, aliás, noutros textos, emito o que raramente faço por escrito: juízos de valor.

Dou um veredicto, um julgamento o que um escritor de ciência não deve fazer. Ainda assim, essa parte da mente cultural dos Picunche e de vários Huinca, esse nome Mapuche dado aos chilenos que significa estrangeiro e os ditados da mente cultural, no presente caso, não podem ser punidos. Podem, sim, ser prevenidos com ensino ou outro tipo de actividade para distrair a mente, como Bion aconselha num dos seus textos citado antes.

O comportamento libidinoso das crianças, além de ser parte da sua estrutura de personalidade, definido por Freud, faz, também, parte da libido de muitos adultos que, aí sim, podemos considerar abusadores de menores, ao obrigá-los a prostituírem-se por meio tostão. Na Cidade de Talca, ao Sul de Santiago do Chile, há casas de prostituição fechadas para homens adultos pedófilos , que levam para a cama rapazes púberes ou pré púberes para seu belo prazer. Adultos de posses e poder que a lei não incrimina, menos ainda a autoridade, que até fomenta e participa neste tipo de actividades. Não há lei a punir a pedofilia

No caso português, o Código Penal de 1940, reformulado em 2008 e o Projeto de Lei 3773/08 (passado, entretanto, a Lei) condena a pedofilia como crime de prisão até quatro anos. Duas leis de tipos diferentes foram promulgadas. Uma, no caso português, para punir crimes de adultos contra crianças, menino ou menina, que reformula o Código Penal e o actualiza no ano de 2008, passando a pedofilia a ser considerada delito de abuso sexual de menores. A outra, no Brasil, foi mais longe ao criar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pedofilia. Este programa vem corrigir alguns problemas com a legislação vigente, visto que até então a posse de material exibindo menores de idade em situações de sexo explícito ou safardanagem em geral não era considerada crime . Vários países de dentro ou fora da União Europeia, têm reagido de forma dura contra a actividade sexual que fere os sentimentos emotivos da criança, ferimentos que, mais tarde, causam traumas na vida adulta, excepto se a pessoa tiver um grande poder de resiliência, conceito definido por Boris Cyrulnik . Antes de passar propriamente ao conceito definido por Boris Cyrulnick, permitam-me referir a especialista brasileira em educação, Sandra Maria Farias de Vasconcelos , que o soube explicar tão bem. Boris Cyrulnick ao definir o conceito Resiliência, como essa inaudita capacidade de construção humana , fâ-lo da seguinte forma: “Fazer nascer um filho não é suficiente”, acrescentando na obra citada: “é mais importante e necessário dá-lo ao mundo educado, colocando à sua volta tutores de desenvolvimento. Isto começa muito antes do nascimento, através das representações da mãe que banham o embrião numa determinada atmosfera psí-quica. Apenas cerca de um terço das gravidezes se realizam em condições sãs. As outras são marcadas por problemas emocionais, uma patologia associada ou por angústias que criam um meio sensorial mais ou menos perturbado. Uma vez nascido o bebé, provoque prazer ou não ao adulto, vai desencadear reacções diferentes que, por sua vez, vão realizar ou não o seu desenvolvimento. A espiral positiva que permite um aquecimento psí¬quico quando a criança aprendeu a fazer-se amar, pode também, transformar-se em espiral negativa. A vinculação à mãe processa-se em condições seguras em 65 por cento dos casos, no entanto, em 5 por cento é uma relação desorganizada provocando um desregramento que desestrutura a criança. Também um acontecimento ofensivo pode surgir, colocando em jogo as instâncias biológicas, emocionais ou históricas do psiquismo. As circunstâncias de um trauma não são, pois, excepcionais. Mas, quando uma rede é assim danificada, as possibilidades de remendar as malhas são numerosas. A resiliência é constantemente possível, desde que a criança encontre um objecto que para si tenha significado. Entre os factores favorecedores, encontram-se as múltiplas vinculações, mas também os circuitos afectivos ou institucionalizados que envolvem o sujeito ou ainda a idade (que determina o nível de construção do aparelho psí¬quico). Estas dimensões assumem uma particular importância: a aquisição ou não de recursos internos, a forma como o trauma é assimilado e a oferta ou não de tutores onde se apoiar. A resiliência é um processo: não só para crianças que acumulam as situações que as anulam, mas a sua evolução tal como a vingança contra a sociedade ou a identificação com a sua própria tragédia, que se torna então um modelo de desenvolvimento e de reprodução. Contrariamente, a intelectualização, o humor, o empenho social e a criatividade são as vias reais que transformam o trauma em ressurreição e em emancipação relativamente ao sofrimento infligido transformado assim num novo sentimento de si positivo. A resiliência não é um catálogo de qualidades que um indivíduo possuiria. É um processo que, do nascimento até à morte, nos liga sem cessar com o meio que nos rodeia...BORIS CYRULNIK .

Notas:
Para lembrar o leitor, excertos do texto podem ser lidos em: http://www.estantevirtual.com.br/livro/15600043/Melanie_Klein_Inveja_e_Gratidao___Estudo_das_Fontes____.html


Lembram-se as ligações previamente citadas neste texto, como por exemplo: http://en.wikipedia.org/wiki/The_Ego_and_the_Id ou http://classiques.uqac.ca/classiques/freud_sigmund/freud.html, obras completas de Freud.


Entre outros, O drama da criança bem dotada, como os pais podem formar ou deformar, texto que pode ser lido em: http://books.google.com.br/books?id=fpGqnZq4FHoC&pg=PA109&lpg=PA109&dq=Textos+de+Alice+Miller&source=bl&ots=gZbYNiyw33&sig=PrNFzFKbl26bEY5TExRhPgxr9bc&hl=pt-PT&sa=X&oi=book_result&resnum=5&ct=result. Para mim, a lembrança mais importante é The Natural Child Project, em: http://www.google.de/search?hl=pt-PT&q=Alice+Miller+The+Natural+Child+Project&btnG=Pesquisa+do+Google The Natural Child Project, Alice Miller Library. A visão deste programa, do qual faço parte, representa um mundo onde todas as crianças são tratadas com dignidade, respeito e simpatia. Apesar de gostar da frase, não é minha. Foi retirada da ligação ao programa: http://www.gurteen.com/gurteen/gurteen.nsf/id/alice-miller-library . A sua obra está em: http://www.naturalchild.com/alice_miller/index.

Giddens, Anthony, 2000: The third way and its critics, Polity Press, Cambridge. Sítio de debate: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Anthony+Giddens+The+third+way+and+its+critics&btnG=Pesquisar&meta. Comentário relacionado a sociedade das crianças. Esta ideia alternativa da terceira via – nem direita nem esquerda na vida política, passou a centro de debate em todo o mundo. A liderança política na Grã-bretanha, nos Estados Unidos de América, na Europa, na Ásia e na América Latina afirmam estar a seguir esses princípios. Porém, a noção não só é criticada, como é, por diversas pessoas, considerada oca e sem conteúdo real. Outros, como os críticos da esquerda mais tradicional, afirmam ser uma traição aos ideais anteriores.

Do Lat. Pontífice s. m., dignitário eclesiástico, ministro do culto de uma religião; por extenso patriarca, bispo, prelado; o papa; fig, chefe de um sistema ou de uma escola; o indivíduo mais respeitável de certas classes.

Catecismo da Igreja Católica. Sítio do livro e debate sobre a sociedade em que vivem os mais novos, com um pensamento estruturado pelos textos e, apesar dos tabus neles definidos, sofrem o mencionado abuso, em: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Catecismo+da+Igreja+Cat%C3%B3lica&btnG=Pesquisar&meta=


Iturra, Raúl, 2000: “Mulher a crescer, Machismo a Tremer. A filiação da criança”, em A Página da Educação, Nº 94, Ano 9, Setembro de 2000, página 25, Profedições, Porto. Texto completo em: http://www.apagina.pt/arquivo/Artigo.asp?ID=1198


Iturra, Raúl, 2000: O saber sexual das crianças, Desejo-te porque te amo, Afrontamento, Porto, citado anteriormente, de 1998: Como era quando não era o que sou. O Crescimento das crianças, Profedições, Porto, ou, também de 1988: Antropologia Económica de la Galicia Rural, Editado pela Xunta de Caliza, Compostela. Há ainda, uma imensidão de textos sobre as crianças, no jornal em suporte de papel e em linha: A Página da Educação, Profedições, Porto, que podem ser lidos em www.apagina.pt.


A pedofilia é um desvio que consiste na atracção sexual do adulto por crianças. Definição retirada dos meus textos, especialmente: “Pedófilos, serão apenas os romanos?”, publicado no jornal A Página da Educação, Profedições, Porto, Nº 114, ano 11, Julho 2002, em: http://www.apagina.pt/arquivo/Artigo.asp?ID=1963.

Texto completo em: http://meiobit.pop.com.br/meio-bit/internet/nova-lei-contra-pedofilia-pune-ate-lolicon.

No seu texto de 2001, denominado Les villaines petits canards, Éditions Odile Jacobs, Paris. O título do livro foi propositadamente retirado de um outro título de um conto para crianças: O patinho feio, essa pequena ave aquática que ninguém queria por não ser bela, mas que foi capaz de aguentar esse ser diferente dos outros, até crescer e transformar-se num belo cisne. Não é por acaso que é uma história universal do tipo de contos usados por Alice Miller, como a análise que fez do conto tradicional: “O rei vai nu”, citado e analisado por mim no livro: A ilusão de sermos pais, 2008, em: http://br.monografias.com/trabalhos913/licoes-etnopsicologia-infancia/licoes-etnopsicologia-infancia.shtml. Tornando ao livro de Cyrulnik, traduzido para português com esse péssimo título que nem permite vender: ninguém sabe o que é resiliência, excepto os “eruditos”. No entanto, a importância da teoria de Boris Cyrulnik (psiquiatra, neurólogo, etólogo, psicanalista e professor universitário), é inquestionável ao renovar conceptualmente a teoria psicanalítica e ao «refrescar» as análises com uma escrita comum, utilizando conceitos simples retirados da vida real. As suas obras parecem romances. Tem-se imposto quer pelos seus inúmeros livros, quer pelo objectivo de tornar a ciência da análise mais acessível. E fá-lo brilhantemente, na minha opinião, ao definir e fazer circular esse conceito tão amado e usado por todos nós, a noção de resiliência, comentado em : http://lionel.mesnard.free.fr/le%20site/boris-cyrulnik.html

A ciência interroga-se, há mais de quarenta anos, sobre o facto de certas pessoas terem a capacidade de superar as piores situações, enquanto outras ficam presas nas malhas da infelicidade e da angústia que se abateu sobre elas, como numa rede engodada. A questão é saber “porque certos indivíduos são capazes de se levantar após um grande trauma e outros permanecem no chamado fundo do poço, incapazes de, mesmo sabendo não ter mais forças para cavar, subir tomando como apoio as paredes desse poço e continuar seu caminho?”, Ana Maria Farias de Vasconcelos, graduada em Letras pela Universidade Federal do Ceará (1996), com especialização em Psicopedagogia e doutorada em Sciences de L'Education pela Universidade de Nantes (2003). Actualmente, professora adjunta da Universidade Federal do Ceará, chefia o Departamento de Letras Vernáculas, também professora colaboradora da Universidade Estadual do Ceará e membro do Conselho de avaliadores do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES) do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). O texto completo pode ser lido em: http://www.sbpcnet.org.br/livro/57ra/programas/CONF_SIMP/textos/sandravasconcelos-resiliencia.htm. Todavia, este comentário, não me parece suficiente para definir um conceito recentemente criado, que, de imedisto, passou a ser tão usado e tão válido, conceito usado por muitos de nós e largamente por mim, o de resiliência. Noção retirada de conceitos da física, usada também, e de forma mais importante, para definir a energia da capacidade humana para ultrapassar golpes duros. Se os materiais resistem, porque é que uma emoção e uma biologia não mudariam? É possível comparar, a psicologia tomou essa imagem emprestada da física, definindo resiliência como a capacidade do indivíduo saber lidar com problemas emotivos, com abusos biológico ou psicológicos, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas – choque, stress, etc. – sem entrar em surto psicológico. No entanto, Francisco Job (2003), que estudou a resiliência em organizações, argumenta: “a resiliência se trata de uma tomada de decisão quando alguém se depara com um contexto entre a tensão do ambiente e a vontade de vencer”. O texto é da sua tese de doutoramento, JOB, F. P.P, 2003: Os sentidos do trabalho e a importância da resiliência nas organizações, referido incompletamente, apenas com comentário, em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Resili%C3%AAncia_(psicologia), texto e comentário, podem ser consultados em: pt.wikipedia.org/wiki/Resiliência_ (psicologia) . Apesar de ser um trabalho sobre Administração de Empresas uso-o para apoiar a minha hipótese. Por outras palavras, a resiliência passou a ser um conceito mais universal ao entrar no mundo da psicanálise, a partir da teoria da física, motivo porque chamo aqui estes autores.


Tais conquistas, face a essas decisões, propiciam forças nas pessoas para enfrentar a adversidade. Assim entendido, pode-se considerar que a resiliência é uma combinação de factores que propiciam ao ser humano superar problemas e adversidades. Para saber mais, o texto completo está na enciclopédia que me apoia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Resili%C3%AAncia_(psicologia)


Definição retirada do texto Resiliência, 2003, Edições do Instituto Piaget, tradução para a língua lusa de Les Vilaines Petit Canards, título retirado de uma história de Hans Christian Andersen, citado antes, página 28, texto que tenho comigo em suporte de papel. Há um comentário sobre o livro que define autor, conceito e valor da palavra de Miguel Santos Guerra: “Vou deter-me neste ponto, pois há quem pense estar condenado a ser desgraçado por toda a vida por lhe ter sucedido uma desgraça qualquer (maus tratos, violência, humilhação) na infância. Não é necessário ser muito sagaz para verificar que há muitos meninos no mundo (e muitas meninas, sobretudo muitas meninas) que suportam uma infância atroz. Vítimas da guerra, vítimas de maus-tratos, vítimas de vexames, vítimas de abandono, vítimas da falta de amor... Crianças que vivem de forma visivelmente aterradora. Outras, de forma camuflada, porém não menos cruel. Terão elas a sua vida destruída? Estarão marcadas para sempre? Não. Há que pôr fim ao fatalismo, ao determinismo, às crenças que engendram destinos sem regresso.”


Boris Cyrulnik (2002) utiliza, como subtítulo da sua obra “Os Patinhos Feios”, uma frase que resume a sua tese base: “A resiliência: uma infância infeliz não determina toda uma vida”. A resiliência é “uma propriedade que define a resistência de um material ao choque”. O autor utiliza o conceito como sinónimo de resistência ao sofrimento. Chama a atenção, tanto para a capacidade de resistir aos embates de natureza psicológica, como para o impulso de reparação psíquica que nasce desta resistência.


“O autor desta obra tinha apenas seis anos quando conseguiu escapar de um campo de concentração, no qual a sua família foi internada e nunca mais regressaram. A sua família estava constituída por judeus russos emigrantes.” Texto completo no blogue Azul Índigo, de 10 de Novembro de 2008, que tem por título: valor de resiliência, em: http://anapsiroqueantunes.blogspot.com/2008/11/valor-da-resilincia.html Não resisto a acrescentar, o motivo de Cyrulnik ao dar este título ao livro. O analista comenta como as desgraças da criança podem não ser um dano quando for adulto. A metáfora é O Patinho Feio (em dinamarquês Den grimme ælling), conto de fadas do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen. (Odense, 2 de Abril de 1805 — Copenhague, 4 de Agosto de 1875), conta uma história que apoia a tese de Cyrulnik: Um filhote de cisne é chocado no ninho de uma pata. Por ser diferente dos seus irmãos, o pobre é perseguido, ofendido e maltratado por todos os patos e galinhas do terreiro. Um dia, cansado de tanta humilhação, ele foge do ninho. Durante sua jornada, ele pára em vários lugares, mas é mal recebido em todas. O pobrezinho ainda tem de aguentar o frio do inverno. Mas, quando finalmente chega a primavera, ele abre suas asas e se une a um majestoso bando de cisnes, sendo então reconhecido como o mais belo de todos. História toda em: http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Patinho_Feio Sobre o escritor, em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hans_Christian_Andersen.


Comentar é simples: as crianças que sofrem em pequenas, acabam por ser criadoras se não se deixarem abater pelas ofensas aos seus sentimentos ou às suas pessoas. O Patinho Feio na vida real, é esse chamado Robert – Boris Cyrulnik – salvo da morte por Margerite Farge. Cyrulnik foi capaz de adquirir essa inaudita capacidade de construção humana, frase do seu livro Les vilaines petis canards, que admiro e uso, pelo qual rendo – lhe homenagem, como por esse outro de 2003: Les murmure de fantômes, Ódile Jacob, 2003, Paris. O texto não está em linha, mas há imensas referências nas entradas Internet da página web: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&q=Les+murmure+de+fant%C3%B4mes&btnG=Pesquisar&meta=, especialmente o comentário de http://www.passeportsante.net/fr/P/Bibliotheque/Fiche.aspx?doc=biblio_a_21250 : traduzido para português como O murmúrio dos fantasmas, editado por Actividades Editoriais Lda. Temas e Debates, Lisboa. Os problemas da infância são esse murmúrio dos fantasmas no pré adolescente e no púbere, que andam sempre na sua memória, mas são apagados com a resiliência e com a criação de novas relações sociais e afectivas. O texto tem este comentário: “Este livro é uma verdadeira mensagem de esperança Marilyn Monroe não conheceu a ternura quando criança. Tornou-se um fantasma. Já Hans Christian Andersen conseguiu ser reaquecido. A afeição é uma necessidade tão vital que, quando somos privados dela, nos apegamos intensamente a qualquer acontecimento que faça uma migalha de vida voltar a nós, a qualquer preço. Os que recusam permanecer prisioneiros de uma ruptura traumática devem livrar-se dela para tornar à vida. Até a transformam em uma ferramenta para conquistar felicidade. Neste livro, Boris Cyrulnik conta como o tumulto do passado ainda murmura na criança mais velha que estabelece novos vínculos afectivos e sociais. E como o apetite sexual na adolescência constitui um momento sensível na evolução da reparação de si. Uma nova atitude diante do sofrimento psíquico, a resiliência propõe construir esse processo de libertação.”, Texto em: http://i.s8.com.br/books_productdetails.asp?Query=ProductPage&ProdTypeId=1&ProdId=736116


: etirado do comentário ao livro em português pelo próprio autor, em: https://www.traca.com.br/seboslivrosusados.cgi?mod=LV125274&origem=resultadodetalhada


(Continua)


publicado por Carlos Loures às 15:00
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