Terça-feira, 21 de Dezembro de 2010
A vida por um fio
Adão Cruz


Que bem estava assim de papo para o ar quando minha mãe entrou no quarto e me disse:
- Meu filho, está lá fora o Virgolino caçoilo e pede encarecidamente que vás ver o seu filho que está a morrer.

Eu havia chegado nesse momento a Vale de Cambra para um fim-de-semana, vindo do quartel militar da Amadora onde aguardava o meu embarque para a Guiné. Estava cansado porque os trezentos quilómetros da altura não eram os de hoje.

Em toda a minha vida clínica vi muitas vidas por um fio. Mas nenhuma como esta se manteve tão enraizada na minha memória. O rapazito, de cinco ou seis anos, estava estendido numa pequena cama, inconsciente, branco como a cal, exangue. Tinha leucemia, segundo o diagnóstico de um pediatra de Espinho. A seu lado, sentada num pequeno mocho, a Tia Alzira do Baixinho esperava o último suspiro para o preparar.

- Amigo Virgolino, o seu filho está a morrer e precisa sem mal nem morte de uma transfusão de sangue. Tenho de o levar a qualquer lado.
- Nem pense, sr.doutor, o meu filho morre mas morre em casa.

Foi aí que a minha força de jovem médico e o meu sangue na guelra me deram a crueza para lhe responder:

- Pois se você não mo deixa levar, ficará para sempre como culpado da sua morte.
Numa golfada de lágrimas, o pobre do homem, vencido, cedeu:
- Leve-o consigo, sr. doutor, para onde bem entender.

Eu tinha um velho Hillman Minx que era do meu pai. Fui chamar um vizinho, o Urgel, e pedi-lhe que viesse comigo. Sentou-se no banco de trás com a criança ao colo e com a velocidade possível dirigi-me ao pequeno hospital de Oliveira de Azeméis. Contactei um colega que ali trabalhava, mais velho do que eu e que eu conhecia, o Dr. Fernando Oliveira e Silva, ainda hoje vivo, a quem esmolei um pouco de sangue que por ali houvesse.

- Lamento muito, meu caro colega e amigo, mas não temos uma gota de sangue.
Corri para a minha carripana que eu muito desejaria que fosse um avião e rumei ao velho Santo António do Porto. Pouca gente de deve lembrar da urgência antiga do Santo António, com seus velhos claustros de paredes escuras e frias. O menino, deitado numa maca e embrulhado num cobertor, fez duas transfusões durante a noite. Ao raiar do dia abriu os olhitos espantados. A cal das suas pequenas bochechas tornara-se levemente rósea.
Foi internado na pediatria onde permaneceu nove meses. O diagnóstico de leucemia nunca foi confirmado, mas sim uma grave doença hemolítica que, muito lenta e progressivamente, se foi compensando.

O Custódio ainda hoje é vivo, pai de filhos e avô de netos.




(ilustração de Adão Cruz)


publicado por Carlos Loures às 19:00
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2 comentários:
De augusta.clara a 21 de Dezembro de 2010 às 19:25
Onde ficas classificado não sei. Mas isso também não importa depois de ler este texto.


De Luis Moreira a 21 de Dezembro de 2010 às 19:59
Adão, que maravilha. Vou-te contar uma. Um vizinho chega ao pé do meu pai e diz-lhe. tenho a Amália (a filha mais velha de 10/11anos) no hospital e preciso de arranjar sangue (B+ ou assim) ou então sangue O, onde vou eu arranjar o sangue. e diz-lhe o meu pai, já arranjou em tenho sangue O. E lá foi o meu pai dar sangue como fez tantas vezes por o sangue dele ser dador universal


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