Segunda-feira, 1 de Novembro de 2010
Os mineiros do Chile e o rating, ou a política versus a economia
João Machado

Durou mais de dois meses a prisão de 33 mineiros chilenos a 700 metros de profundidade, numa mina onde as normas de segurança não eram devidamente respeitadas. O mundo inteiro acompanhou esta odisseia, e rejubilou quando finalmente foram salvos. O regozijo foi unânime à volta deste assunto. Até os clubes de futebol portugueses (que são, como todos sabemos, muito importantes!) querem confraternizar com os mineiros salvos.

Entretanto, li no Observer de 17 de Outubro último que a agência francesa de rating COFACE (http://www.coface.com/) deu ao Chile a nota (não é assim que se diz?) de A2. Esta informação veio na secção de análise de negócios do jornal, num comentário de Andrew Clark. Este terá contactado Xavier Denecker, director da COFACE em Inglaterra, que lhe terá referido que o salvamento dos mineiros terá resultado muito favorável para a economia chilena, porque terá dado aos investidores internacionais uma imagem de um país onde se consegue fazer negócio com segurança, na medida em que foi dada uma boa impressão em termos de tecnologia, solidariedade e eficiência. A COFACE classifica o Chile na categoria de A2, que corresponde a uma probabilidade baixa de risco para as entidades que ali queiram investir. O Reino Unido, em comparação, tem uma classificação de A3, que corresponde, para a COFACE, a uma probabilidade de risco aceitável, mas superior à do nível A2. Andrew Clark remata, com humor (se bom ou mau, vocês leitores dirão), com a conclusão de que, em termos financeiros, uma situação bem sucedida de socorro a mineiros poderia beneficiar muito a economia inglesa. E, sempre no mesmo tom, acaba a exclamar: “Ah, se a Senhora Thatcher não tivesse fechado todas as nossas minas …”

O humor tem sempre aspectos positivos, digo eu. Mas há que ver a situação também sobre outros aspectos. O Chile tem uma economia bastante aberta ao exterior, e as suas exportações dependem muito do cobre. Este drama na mina de S. José, no Atacama, acabou bem, mas há que ter presente que houve riscos grandes de uma tragédia. Pessoalmente, penso que isso teria sido terrível, mas que a economia chilena teria continuado a sua marcha. Simplesmente, como foi possível acontecer este acidente? O custo do salvamento, lê-se noutra secção (News/World) do mesmo número do Observer, está estimado em 18 milhões de dólares. O dinheiro não é nada, pois as vidas humanas foram salvas. É contudo importante conhecer onde falhou a segurança na mina e tirar ilações. E se o salvamento tivesse corrido mal?

O recém-eleito Presidente chileno, Sebastián Piñera, após a eleição conheceu rapidamente uma quebra na sua popularidade, sem dúvida que por causa da crise económica, e do aumento considerável da pobreza no país. Ninguém o censura por ter investido tanto no salvamento da mina (embora, ao que parece, contrariando alguns dos seus conselheiros). E assim conseguiu aparecer à opinião pública, nacional e internacional, a uma luz muito favorável.

O comentário de Andrew Clark levanta ainda questões de outra natureza. É sabido a enorme influência que as agências de rating têm nas decisões dos governos ansiosos de captar investimentos. Mas pensemos em como é possível que o Chile (país aliás muito estimável), tenha uma classificação melhor que o Reino Unido? Este tem sem dúvida, uma economia muito mais sólida. Tem uma governação de qualidade razoável, embora sem dúvida que questionável em muitos aspectos. O seu sistema judicial (aspecto que parece ser muito tido em conta pelas agências, por causa da cobrança de dívidas) é também tido como bom (há o caso do Vale e Azevedo, que parece destoar aqui, mas vamos por agora ignorá-lo). Que explicações poderemos ter aqui? A China e a Espanha, em situações muito diferentes, também têm classificações de A3.

Vivemos numa época em que o poder económico se parece sobrepor ao poder político. As consequências que daí advêm para a democracia e para o bem-estar dos povos são pesadas. Os problemas da informação e da circulação de capitais estão na mão de um número reduzido de pessoas e de entidades, e a transparência nesta campo é reduzida, para não dizer que é nula. A resposta tem de ser dada ao nível público, nacional e internacional. No aspecto concreto da informação económica e financeira é necessário haver organismos públicos que divulguem informações sobre o estado da economia das várias partes do mundo, destinadas não só aos empresários, mas também a quem procura trabalho. A globalização, muito falada e aclamada há alguns anos atrás parece estar um tanto posta de parte, sem dúvida que devido à formidável crise financeira que nos assola. Penso que seria rever muito do que foi dito e, mais uma vez, defender a necessidade da informação para todos, condição básica para o aprofundamento da democracia, indispensável para que esta não seja apenas uma caricatura.




publicado por João Machado às 22:30
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1 comentário:
De Luis Moreira a 1 de Novembro de 2010 às 23:06
Que legitimidade têm as agências rating? Que poder têm para poderem lançar na recessão economias de países soberanos? Que sabem as agências que mais ninguem saiba?


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