Sábado, 13 de Novembro de 2010
Vai o rio no estuário
Adão Cruz


Mera informação aos amigos do estrolabio


Tenho vários livros contendo poemas, mas livros propriamente de poesia tenho dois, ou melhor, quatro, dado que o segundo é um conjunto de três pequenos volumes, com os subtítulos “Poemas do lusco-fusco”, “Poemas de ser e não ser” e “Poemas estoricônticos”. O primeiro livro intitula-se “Esta água que aqui vem dar” e foi editado em 1993, com a prestimosa ajuda do meu amigo Eugénio de Andrade. O segundo tem o título “Nova ponte sobre um velho rio” e é de 2006.

Estou a preparar um novo livro a que darei o título “Vai o rio no estuário”, com subtítulo “versos de braços abertos”. Neste livro, procurarei dar a poemas novos e a antigos que eu resolver reformular, uma nova forma, em que os versos se abrem e se espraiam como os braços de um estuário, tal como em criança eu abria os braços de par em par, quando chegava ao fim da corrida. Porei de lado o velho conceito de estrofes e a sua classificação quanto ao agrupamento de versos, versos que não submeterei a metrificações, encadeamentos e rimas previamente concebidos em esquemas. Uma espécie de versos livres, versos ao calhas, ao sabor do vento suave que afaga as águas de um estuário.

Procurarei fazer com que os poemas que doravante o estrolabio fará o favor de publicar (deixo aqui lugar a uma ou outra excepção) obedeçam a este princípio. Tudo isto porque há muito me sinto um tanto enjoado com a poesia que por aí se faz e se consome. Talvez porque, embora tarde, comece a ter consciência das margens apertadas do meu rio e a sentir a atracção da liberdade de abrir os braços no fim da corrida.

Darei aqui um exemplo do que pretendo tentar fazer:

Meu amigo Dostoievsky

Meu amigo Dostoievsky nada temos a ver aparentemente um com o outro a não ser o nosso encontro pelos meus dezoito anos.

Apetece-me chorar ao recordar pelos meus verdes anos as noites em que á luz de um foco olho de boi debaixo dos lençóis para que minha mãe não visse eu invadia os teus livros numa das maiores e mais deliciosas aventuras da minha vida.

Ainda hoje me são familiares o rosto de Sónia e a figura de Raskolnikov luz mítica e mística dos que têm coisas em comum orientando-se na direcção do símbolo e do mundo sem forma.

Da mesma forma que te marcaram Balzac Schiller Victor Hugo e Goethe tu imprimiste em mim a sensação que te fez desmaiar perante a beleza de Seniavina na casa dos Wielgorsky e eu não sou homossexual meu caro Dostoievsky.

Perante a beleza eu não sei ao certo onde pára o sexo se no esperma de Úrano derramado no mar se na poesia da Morte em Veneza.

Não é a realidade física que interessa ao simbólico mas o significado do sexo na imaginação. A dualidade do ser funde-se na tensão interna de quem ama e a união sexual não é mais do que o apaziguamento da tensão interior.

Nunca te concebi humano sobretudo depois dessa manhã de rosto de pedra e gelo em que viveste o mais trágico minuto da tua vida. Um vento glacial varreu-me a fronte ao ouvir o teu nome na chamada para a morte: -Akcharumov! Shaposhnikov! Dostoievsky!

Hoje depois de ter amado tanto aceito a tua epilepsia como o estigma mais marcante da pureza da dor da condição humana e passei a considerar-te meu irmão para o resto da vida.

Por isso me senti prisioneiro quando entrei na fortaleza de S.Pedro e S. Paulo e por isso chorei na Praça Semenovsky onde viveste uma vida inteira em dois minutos de morte. Era como se fosse eu o condenado!

Também chorei quando reencontraste Suslova apenas pelo que sofreste ao ver que o amor não se repete.

A noite e o vazio estão na origem cosmológica do mundo e o amor é uma criança que cresce...e deixa de ser criança.

Amor e morte quando descobertos acordam e fogem.

Para escrever é preciso sofrer muito disseste um dia ao jovem Merejkovsky quando a vida confundia as chamas do teu inferno com relâmpagos de visionário.

Sofrer pode ser apenas sorrir...frente a toda a utopia palpável não paranóica nem delirante.

Foi a mim que o disseste meu caro amigo foi a mim que o disseste na tarde cinzenta da tua morte na hora da hemorragia que te vitimou.

Até hoje ainda não te agradeci.

Perdoa não te ter acompanhado mas nessa altura eu não existia...ou será que ainda hoje te acompanho neste pesado e obscuro caminho do fim?


publicado por Carlos Loures às 23:55
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5 comentários:
De augusta.clara a 14 de Novembro de 2010 às 00:03
Eu, que vivo no Estuário, cá te espero.


De Luis Moreira a 14 de Novembro de 2010 às 00:37
O escritor sofre muito, é bem verdade.Quanto mais rica é a vida interior mais se sofre e mais
dúvidas se tem. Tu preocupas-te como poucos com o teu próximo. Eu reconheço isso, e admiro-te por isso.


De paladar da loucura a 14 de Novembro de 2010 às 01:03
Querido Adão,
A intimidade que lido com a tua escrita, leva-me à ilusão de julgar-te amigo íntimo que conheço por dentro.
Ando a ler e reler Cartas a um jovem poeta de Rilke. Diz ele numa das cartas, para mim magníficas: "Tudo é gestação e depois nascimento. Permitir que cada impressão e cada germinar de sentimentos cresça por si próprio, na escuridão, no indizível, no inconsciente, para lá do alcance da inteligência de cada um e esperar com profunda hulmidade e paciência a hora do nascimento de uma nova luz: só isso é a vida de um artista, na compreensão tal como na criação.
Não há aqui que medir forças com o tempo, um ano não importa e dez anos não são nada. Ser um artista não significa o reconhecimento e a contagem, mas o amadurecer, tal como a árvore que não força a sua seiva e permanece confiante perante as tempestades de Primavera, sem temer que depois dela venha o Verão."
Querido amigo, que eu adivinho conhecer, sinto na tua liberdade o saber de quem largou o esquadro porque de cor conhece todas as fronteiras, ousando o indizível, abraçando sem limites a Vida.
Hoje vou dormir mais feliz. Obrigada


De augusta.clara a 14 de Novembro de 2010 às 01:33
E esse livro que foste buscar, Ethel, é das coisas mais maravilhosas que já li.


De adão cruz a 14 de Novembro de 2010 às 14:32
Obrigado Luis, obrigado Augusta, pela vossa constante leitura e pelos vossos comentários ao que escrevo. Quanto a ti Ethel, apenas te digo que acabei de adormecer a minha netinha, agarrada à minha orelha, e pensei: Ainda me é dado sentir um prazer destes no seio deste mundo-cão. Mas não é só este, felizmente. O prazer de ler o teu lindo texto e o prazer de saber que foi a minha pessoa quem o desencadeou, é muito grande. Um beijinho.


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