Terça-feira, 14 de Setembro de 2010
Tradição e irracionalidade
Manuel Simões


Recentemente, para justificar aspectos controversos das festas de Monsaraz, e à semelhança do caso de Barrancos, falou-se de novo das tradições populares e do seu peso na cultura e na identidade. A questão da tradição foi invocada evidentemente pelos defensores das cerimónias sangrentas, o que, desde logo, introduz o choque entre as ideias e os costumes tradicionais, em contraposição com os modos de vida introduzidos numa dada sociedade e que entram em conflito com a chamada tradição.

De facto, como todos sabemos, as sociedades que existem no mundo de hoje diferem todas dos tipos tradicionais de ordem social que dominaram o mundo, o que distingue as sociedades modernas das sociedades pré-modernas. Daí que, em meu entender, a defesa intransigente da tradição ancestral para reivindicar um acto que, à partida, escapa ao que se considera racional, conduz inevitavelmente a uma visão estática, inerte, da cultura, por oposição às culturas progressivas, até porque, quer se queira quer não, a mudança social influi sempre no desenvolvimento cultural humano.

Deste modo, e embora pareça um paradoxo, a tradição faz-se fazendo, o que significa que os actos acumulados pela sedimentação se tornam irrepetíveis, são sempre novos porque outros, por mais que se pretenda institucionalizar a tradição. Esta avança com a evolução das mentalidades, das técnicas, da formação do gosto. Por exemplo, o banho do dia de S. Bartolomeu, praticado em algumas comunidades com a convicção de que previne a gaguez e o medo, baseia-se nessa convicção para justificar um acto de violência associado a uma boa dose de atitude folclórica. O que acontece é que, quanto mais circunscrita e fechada for a tradição, menos possibilidade tem de evoluir ou de se renovar, apoiando-se por vezes, com orgulho e obstinação acríticos, na mentalidade de um país (ou de uma região) que ainda não deu o salto para a frente e que continua a ter no passado os seus pontos de referência (labirintos da saudade e quejandos).

A esta visão do mundo anda associada a mania, cada vez mais generalizada, da recuperação dita histórica da época medieval, inventando gastronomia, cortejos, modelos monárquicos, tudo em nome da tradição, esquecendo-se que os objectos e os actos sociais “se criam” para satisfazer as necessidades de uma determinada organização da sociedade e que a esta ficam irremediavelmente ligados. Repropor hoje, em nome do turismo de massas, um arremedo das ceias medievais ou a exaltação anacrónica e obsoleta do fausto monárquico não me parece uma boa maneira de produzir cultura, sobretudo porque não se inscreve nestas acções o contexto em que se produziam, único modo de oferecer uma possibilidade de análise e de interpretação críticas de tais representações que, ainda por cima, agravam os orçamentos depauperados das autarquias.

E, já agora, dito aqui entre parênteses, quando deixaremos de ter os contos infantis ligados às figuras “tradicionais” dos reis, das princesas, dos duendes, das fadas, etc.? É uma prática quanto a mim perversa, na medida em que se constrói um imaginário infantil que a criança terá mais tarde que remover.Mas voltemos à tradição.

Em termos sociológicos, é evidente que se deve evitar o etnocentrismo, isto é, a tendência para julgar as outras culturas segundo os parâmetros do sistema de referência que utilizamos. Mas as sociedades humanas nunca se encontram isoladas e, como já defendeu uma autoridade como Lévi-Strauss, a noção de diversidade cultural não deve ser concebida de maneira estática ou estacionária no tempo, como se cada cultura ou cada sociedade se tivesse desenvolvido no isolamento de todas as outras. É por isso que certa antropologia e sociologia portuguesas se manifestam numa perspectiva que me parece arqueológica, até porque, como tudo na vida, os actos humanos se produzem progredindo, inovando, sem ficarem agarrados à estratificação dos fósseis, o que significa que, deste modo, têm mais possibilidade de fugir à eventual irracionalida


publicado por Carlos Loures às 19:30
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15 comentários:
De adão cruz a 14 de Setembro de 2010 às 21:36
Gostei especialmente deste parágrafo que subscrevo inteiramente: "E, já agora, dito aqui entre parênteses, quando deixaremos de ter os contos infantis ligados às figuras “tradicionais” dos reis, das princesas, dos duendes, das fadas, etc.? É uma prática quanto a mim perversa, na medida em que se constrói um imaginário infantil que a criança terá mais tarde que remover." Não me lembro de ter visto ou ouvido alguém chamar a atenção para esta coisa tão comum e tão estúpida.


De Luis Moreira a 14 de Setembro de 2010 às 22:54
É bem verdade, tambem não me lembro de ouvir antes.


De carlos loures a 15 de Setembro de 2010 às 09:11
A tradição dos touros de morte em Barrancos, por exemplo, remonta salvo erro a 1928 - 82 anos! Será uma tradição num país com quase nove séculos de História? A própria tourada "à portuguesa" poderá ser considerada tradicional e "à portuguesa", acompanhadas que são as sortes por espanholíssimos paso-dobles? As tradições fabricam-se rapidamente e, algumas delas, deviam ser desconstruídas (acompanhando a sua desmontagem de uma cuidadosa pedagogia). As histórias de princesas estão na base do marketing de odiosas revistas como a Hola - aquele jet set de "gente bonita", carros luxuosos e aristocracias pacóvias, aos olhos das pessoas siimples são as histórias de fadas transpostas para a realidade.


De augusta.clara a 15 de Setembro de 2010 às 20:00
Pois eu li contos de fadas, ainda hoje sou capaz de os ler e acho que não me fizeram mal nenhum, nem me impediram de evoluir para a vida adulta de modo consciente. Mais: acho que fazem falta às crianças, alimentam o seu maravilhoso imaginário, só próprio daquela idade. Para quê endurecer-lhes a vida antes do tempo? E os contos de fadas não se limitam a falar de príncipes e princesas. Dão subtilmente a noção dos valores a seguir ou a regeitar. Isso, para mim, é o mais importante. Pois é, pior são as touradas onde se massacra um pobre animal para distração duma praça cheia de grunhos.


De augusta.clara a 15 de Setembro de 2010 às 20:37
Que fique bem claro: eu sou a favor dos contos de fadas, por causa das fadas, não pelos reis e princezas. Alguém é capaz de dizer que não gostou de "A Fada Oriana" da Sophia de Mello Breyner? É um bocadinho diferente das outras? Pois é, mas é uma fada. A Sophia sabia que as histórias com fadas faziam falta às crianças.


De clara castilho a 15 de Setembro de 2010 às 20:43
Estou de acordo com a Augusta, quanto aos contos de fadas. Quanto ao resto estou de acordo com o que se defende.
Os contos de fadas inserem-se num conjunto em que incluo os contos tradicionais. É verdade que podem ser crueis. Mas como há sempre uma reparação, a criança revê-se na problemática apresentada e como que descansa porque o problema foi resolvido.
Fica aqui a promessa de abordar este assunto (ai no que me meti!)que me toca de perto.


De Luis Moreira a 15 de Setembro de 2010 às 20:43
Eu gosto daquelas que tem uma fada má...


De augusta.clara a 15 de Setembro de 2010 às 22:24
Uma fada má dá-te uma maçã envenenada para comer e ficas a dormir 100 anos. Desconfio que nunca leste contos de fadas, Luís.


De augusta.clara a 15 de Setembro de 2010 às 22:35
E meteste-te muito bem, Clara! São precisas fogueiras para animar a malta. Isto é o problema dos 19%. Muito eu gostava de saber quantos dos nossos amigos é que leram contos de fadas.


De Luis Moreira a 15 de Setembro de 2010 às 23:02
Eu em pequenino levava porrada e andava todo o santo dia na rua, porque tinha que tomar conta do meu irmão mais novo, e os meus pais estavam separados, e como o meu pai tinha que trabalhar e não havia escolinhas...e não fiquei assim tão apanhado como isso,ó Augusta!


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