Terça-feira, 9 de Novembro de 2010
O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade –21 por Raúl Iturra.
(Continuação)
Chegava ao fim o Paraíso encantado, sem barulho, longe da cidade, com carros para nos deslocar, ou com as nossas bicicletas ou, simplesmente, a pé ou a cavalo.

Com a minha amada irmã Blanquita, mal havia temporal, ou os bem conhecidos terramotos, normalmente um por ano, ou tremores de terra, quase diários, lá íamos à procura de asilo para os que sem casa ficavam solicitando aos ricos o empréstimo dos seus armazéns, das suas adegas ou terrenos abandonados para construir casas designadas meias águas, feitas em madeira com um tecto para a água da chuva, sempre muita, escorregar – daí, meias água (porque tinha apenas uma placa de madeira, para resguardo da água). O nosso crescimento fez-nos pessoas implicadas persistentemente na defesa dos direitos humanos. A minha doce irmã, nos Centros de Madres com a nossa Senhora Mãe, de uma simpatia e solidariedade impossível de descrever, doce e muito religiosa, de terço às tardes, de joelhos, a família toda, até que, a pouco e pouco, foi ficando apenas com os empregados de casa. O nosso irmão, a converter operários para o marxismo, eu a fundar sindicatos de pescadores e de operários da fábrica, outra a dançar andaluz o tempo todo enquanto criava uma escola para as raparigas operárias.

O primeiro sindicato a reclamar leveza no trabalho, organizei-o com quinze anos de idade e dois anos mais tarde, aos dezassete, criei o teatro; o Centro de Madre, foi fundado pela minha amada irmã apenas com catorze anos; o nosso irmão aos treze anos de idade formou centros marxistas de rebelião ao passo que a mais nova, completava os seus estudos.

Enquanto um era advogado para defender causas perdidas e apoiar os sindicatos (eu), outra formou-se como Assistente Social (Blanquita), mais tarde, já como analista, concebeu o Programa de Atención Integral en Salud, PRAISE, que hoje, após o terramoto da ditadura, coordena em quatro províncias do Centro do Chile, trabalhando desde as 8 da manhã até noite dentro, na constante procura de melhorar as depressões causadas pelo nefando assassínio que faleceu réu de crimes imensos, e em tribunal. O nosso irmão Jaime, Engenheiro Agrícola e Florestal, é hoje em dia membro do PC Chileno, enquanto Flor Maria foi educada, na mesma Universidade dos Senhores Pais, como de todos nós e dos nossos descendentes, para Ser Senhora. Assim, Senhora é, dedicando-se actualmente à pintura. Maria de los Ángeles estudou e criou família, filhos, netos e bisnetos – com esse programa, relatado por mim noutro livro.

Já não havia tempo para correr e cantar, como outrora. O teatro foi à vida, as danças andaluzas também, os Centros de Madres e de Escuteiras, orientados pela Senhora Mãe, e o Sindicato, pela lei que organizámos na segunda metade dos anos cinquenta do século XX. Agora, nos verões, dedicávamo-nos à alfabetização, recorrendo ao método de Paulo Freire, construíamos estradas, levantávamos escolas, ensinávamos higiene, lutávamos pelo nosso candidato, Dr. Salvador Allende e os seus ideais.

Nessa época, ganhei a mania de pregar nas homilias celebradas pelo nosso amigo Mário Erazo às 10 da manhã de todos os Domingos. Nessas manhãs dominicais, levado de carro até à Igreja, eu batia e batia o sino da solidariedade, até conseguir que paroquianos detentores de muitas terras oferecessem algumas das que não usavam, para construção de um bairro que, até hoje, tem por nome Don Raulito Iturra, tal como o que organizara em Viña del Mar, para os pescadores ou o de Caleta Abarca, que visitei em 2004, designado Raúl Iturra. Os santos padroeiros com muito dinheiro e terras comoviam-se com os meus sermões, especialmente quando, como um Lutero, um Calvino ou um Knox qualquer, afirmava que iam ganhar o Reino dos Céus. Foi com essa segurança que, o secretamente ateu Rir – eu – soube levantar a população, nomeadamente em alguns bairros de lata de Valparaíso. Foi assim que me formei em advocacia.

No decurso desses trabalhos de verão, conheci uma rapariga, doce como o mel; perdido de amores pela recém retornada ao Chile, vinda da Europa, solicitei ao meu Senhor Pai que a pedisse em casamento (para mim, claro). Foi longa a espera, mas a minha persistência foi tanta, que ela acabou por dizer sim. E porque sim, casámos. Partimos para a Europa, onde prossegui os meus estudos em Antropologia, e, como antropólogo, deslocámo-nos de novo para o Chile quando aconteceu o assassinato do nosso Presidente e da sua via chilena para o socialismo.

Tivemos duas filhas preciosas e extremamente bem cuidadas, especialmente pela mãe, a minha mulher, que, um dia, ficou farta de mim e pediu-me o divórcio. As suas perspectivas eram, afinal, bem diferentes das do radical revolucionário, com quem casara, que vivia para a prática do Direito e Lei e das Ciências Sociais. O resto, não é a minha história.

Paradoxalmente, a minha história de vida não me parece minha. Assim, para me entender, entre o Id, o ego, o superego, as fantasias e as relações sociais e porque um dia disseram-me que podia falecer por causas neurológicas, apressei-me a escrever as minhas memórias e as lembranças das minhas ultra amadas filhas e as dos seus filhos.

O resultado dessa escrita intensa, apareceu como Mis Camélias-Recuerdos de Padres intresados, texto pensado para ser escrito pela minha pequena família. Não aconteceu. Pelo contrário, criticam-no duramente, apesar de ter ganho um prémio. Esse livro fez-me perder a família. Louvores na escrita, profunda tristeza na vida familiar, solidão das solidões. Gostaria, no entanto, de realçar que pedi licença aos interessados, ao enviar-lhes um exemplar para lerem, sugerirem, darem a sua opinião e, naturalmente, autorizarem a edição. Mas os meses foram passando e uma vaga de silêncio instalou-se por um livro não lido.

Como Etnpsicólogo, como sujeito de uma psicanálise de dez anos para ser etnopsicólogo, decidi auto analisar-me. Por não saber qual o erro, recorri a Freud e aos seus discípulos.

Dir-me-ão porquê Freud? Porque ele, tal como Copérnico e Charles Darwin, revolucionaram a forma do ser humano se ver dentro do infinito Universo. Para Sigmund Freud, as acções e os desejos não são fruto da vontade e da vaidade humana, mas sim do Inconsciente, esta nova maneira de pensar a psique humana, abalou o mundo científico. Ansioso na obtenção de respostas plausíveis para aplacar o sofrimento dos seus pacientes, enveredou pela doutrina de Charcot e utilizou a hipnose nos seus estudos sobre histeria. Muito embora os seus estudos encontrassem resistência na ala conservadora da Medicina, que via nas teorias freudianas uma ameaça à primazia do ser humano, Freud prosseguiu a sua linha de pensamento e descobriu que o ser humano é dividido entre o Consciente e o Inconsciente, lançando as bases da Psicanálise.

É interessante observar como ao comparar etapas da vida de si próprio com a da sua descendência é possível articular as suas descobertas com as experiências pessoais do psicanalista. Como a teoria que desenvolveu sobre o Complexo de Édipo, fundamentando-se na relação com o seu pai morto, recorrendo a uma linguagem metafórica e onírica. O conflito interior que Freud viveu, enquanto tentava penetrar no obscuro Inconsciente dos seus pacientes, temendo encontrar o inefável, o impensável, era, na verdade, receio de encontrar a sua própria essência. Esta questão, também é parte do conflito da minha auto-análise para entender o que foi desastroso na minha escrita de Mis Camélias.

(Continua)


publicado por Carlos Loures às 15:00
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