Terça-feira, 17 de Agosto de 2010
Integrar é preciso
Marcos Cruz



Imagine-se numa discoteca em que, ao soar de uma música conhecida, toda a gente converge para a pista. Você, por não estar seguro dos seus dotes rítmicos, fica a ver. Dentro de si, a vontade de participar no movimento colectivo debate-se com a falta de autoconfiança. Põe a hipótese de o melhor ser sair dali, mas, depois de antever a violência de se reconhecer como um derrotado, como um incapaz, opta por dar a ideia de que se sente bem assim, parado, apenas a olhar. Apoia-se, entretanto, na bebida e no tabaco - e, cada vez menos dono de si, questiona-se também sobre se estas ‘muletas’ não prejudicarão a imagem que está a transmitir aos outros, se não o tornarão ainda mais fraco aos olhos do todo, de que não sente fazer parte. A páginas tantas, junto a uma pessoa sua amiga que se aproxima e pergunta por que não dança, você assume não conhecer o léxico dos passos, não sentir o ritmo, não acreditar nas suas capacidades, enfim, tudo somado, confessa-lhe que é a pessoa errada no lugar errado.

Agora imagine que o lugar errado é o lugar, ponto. Ou seja, não há outro. Você tem de aprender a dançar. Rendido à inevitabilidade, já depois de aceite o facto de que prolongar a recusa só lhe vai causar mais sofrimento, percebe que, para se integrar, necessita de superar os seus medos. Aí, a sua amiga ajuda-o a relativizar o peso dos outros, da massa dançante, dizendo que cada um está entregue a si mesmo, que se alguém olhar para si e gozar consigo, com o seu processo de aprendizagem, é porque esse alguém não usa da verdade, ele próprio não está seguro de si e assume a estratégia mais fácil e mais cobarde para se legitimar ali, que é procurar sacudir para outra pessoa a chacota de que teme ser alvo. Você, contudo, nesse momento, acha mais possível a mimese do que a expressão individual - está nos antípodas da liberdade e só quer passar despercebido. A música, por outro lado, não bate cá dentro, não faz eco no seu corpo, não o aquece, só o petrifica. A sua amiga passa por si, pisca-lhe o olho e diz-lhe para sentir, mesmo parado. Diz-lhe para ver como um direito o que se lhe afigura como um dever. Diz-lhe que numa piscina há os que nadam impecavelmente, os que disparatam, os que brincam, os que chapinam, os que dão mergulhos, e todos se divertem. É nisto que as metáforas são úteis. Você reflecte e faz um gesto tonto. Ri-se. Depois faz outro. Ou seja, assume o ridículo, é-lhe mais fácil, para início. Está na margem oposta à do pretendido, mas está porque quer, não porque almejou a outra e, dando um passo maior do que as pernas, caiu ao rio. Pelo menos, sente, já está lá, no quadro grande, no todo. Pouco a pouco, vai pondo um pé na água, outro, molha a perna até ao joelho, depois demove-se, com o frio e a corrente, espera um bocado, volta a fazer o mesmo, depois as coxas, ainda sentado na margem, e alguma coisa, que já não alguém, que já não a amiga mas alguma coisa sua, uma voz interna, lhe vai dizendo que o processo não é assim tão mau, até provoca sensações curiosas, agradáveis. Paralelamente, a ideia de chegar ao outro lado vai perdendo importância, embora com uma lentidão que retira nitidez a uma consciencialização sua das pequenas vitórias que grão a grão, como numa ampulheta que se vira ao contrário, está a acumular. Mesmo que demore muito a sentir a utilidade deste trabalho pessoal para o todo, já sente a utilidade pessoal de todo este trabalho, e isso é fundamental. Tem aí, de resto, um sinal claro de que o objectivo tende a abstractizar-se à medida que o processo se concretiza, ou seja, de que ele existe apenas para desaparecer, qual miragem no deserto, e isso, por paradoxal que pareça, não só não o demove como o motiva, fá-lo aumentar a capacidade de saborear as coisas, os momentos, cada vez com mais detalhe, dando-lhe a ideia de que a sua sensibilidade se subdivide, se reproduz, se multiplica. O eu que fiscalizava dilui-se pouco a pouco no eu que se mexe e, de um modo cada vez menos racionalizado, entram ambos no ritmo, dançando juntos. O primeiro passo fluído da dança é o primeiro passo fluído da integração, o eu e o eu já só um, olhando o tu olhos nos olhos, com apetite. A partir de então, como numa penetração sexual, tudo se humedece e abre, espantosamente. Parece que o mundo é seu, mas é e não é, ou melhor, é tão seu como do Outro. O orgulho da autosuperação leva-o a exibir-se, a exagerar na presunção de domínio, a abusar do poder. A sua amiga aproxima-se e, gentilmente, pontua-o, lembrando-lhe que uma guerra ganha tem muitas batalhas perdidas. A noite desliza consigo e, música a música, corpo a corpo, você vai percebendo que um novo dia está para nascer. Seja bem vindo ou bem regressado.


publicado por Carlos Loures às 19:30
link do post | comentar

2 comentários:
De paladar da loucura a 17 de Agosto de 2010 às 19:47
Marcos, alguém te contou este meu pesadelo? E quando a vontade de estar do lado de dentro é tão forte que nos escapamos por fora? Depois há professores de ocasião que te prometem o milagre que até à data nunca aconteceu.
- não quero morrer sem saber dançar! porque no dia do evento quero estar tão dentro do lado de dentro que até morta danço!


De Luis Moreira a 17 de Agosto de 2010 às 19:59
É pá, isto agora é só abanar o "capacete". Mas compreendo muito bem, uma vez fui-me abaixo por estar a falar para uma plateia de notáveis. cada um com a sua mania, manienta...


Comentar post

EDITORIAL
AUTORES
Adão Cruz

Adriano Pacheco

Alexandra Pinheiro

Andreia Dias

António Gomes Marques

António Marques

António Mão de Ferro

António Sales

Augusta Clara

Carla Romualdo

Carlos Antunes

Carlos Durão

Carlos Godinho

Carlos Leça da Veiga

Carlos Loures

Carlos Luna

Carlos Mesquita

Clara Castilho

Ethel Feldman

Eva Cruz

Fernando Correia da Silva

Fernando Moreira de Sá

Fernando Pereira Marques

Hélder Costa

João Machado

José Brandão

José de Brito Guerreiro

José Magalhães

Josep Anton Vidal

Júlio Marques Mota

Luís Moreira

Luís Rocha

Manuel Simões

Manuela Degerine

Marcos Cruz

Maria Inês Aguiar

Paulo Melo Lopes

Paulo Rato

Pedro Godinho

Raúl Iturra

Rui de Oliveira

Sílvio Castro

Vasco de Castro

Contacte-nos
estrolabio(at)gmail.com
últ. comentários
Olá Sr. / Sra.Você precisa de empréstimos para o p...
HOLA...¿NECESITA PRESTAR DINERO PARA PAGAR CUENTAS...
Bom-dia Senhoras e Senhores.Sou uma mulher de negó...
Sou uma mulher de negócio Portuguesa e ofereço emp...
Dude, if you were trying to sound portuguese let m...
Olá Andreia! Sei que esta publicação já é antiga. ...
Patricia Deus vai abençoar você e sua empresaMeu n...
Meu nome é Fábio João Pedro e eu sou de Portugal. ...
Meu nome é jose matheus Giliard Alef sou do brasil...
Bom dia a todosMeu nome é Damián Diego Alejandro, ...
pesquisar neste blog
 
posts recentes

De 26 de Setembro a 2 de ...

As minhas novas pegadas (...

A viagem dos argonautas

Portugal, a União Europei...

Políticos que cumprem ! P...

O Ministro Gaspar

Anima ver o lado positivo

Palavras Interditas - por...

Os jornais e as notícias ...

Summer Time - Ella Fitsge...

arquivos

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

tags

todas as tags


sugestão: revista arqa #84/85
links