Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010
Para Sempre, Tricinco ALLENDE E EU - autobiografia de Raúl Iturra - (24)
(Continuação)

Tricinco, no decorrer da escrita, tem passado a ser quase um conceito, um conceito metafórico. São tricinco de sobre vida, tricinco de experiências, tricinco de vida académica, tricinco de exílio, de paternidade, escrita, conhecimento de amigos, de subir os degraus da escala da vida, com persistência e decoro. É evidente que é metafórico, porque é a partir da minha sobre vida a não ser fuzilado ao 18 de Setembro de 1973, e que a contagem foi para trás para recomeçar nesse dia, um novo nascimento. Desde esse dia em frente, desconto os anos de vida que tenho e fico em tricinco, a idade que sempre refiro ter e que todos pensam que é uma brincadeira minha. Por não saber da minha vida. Tricicno anos de adesão ao nosso Presidente assassinado, tricinco desde o dia, ou melhor, noite, que a minha mulher passou a apagar, a noite toda, gravações feitas por mim as mulheres do inquérito para a nossa escola Camponesa da nossa Universidade, caso o caso for de sermos mais uma vez invadidos pelo exército na nossa casa. Inquérito feito a 2000 mulheres, ao longo de dois anos, com a minha irmã Blanquita e a nossa amiga e colega Nilsa Tápia. Esses dias eram temidos e todo ou nada podia ser usado contra nós em qualquer julgamento ou perseguição. Tricinco anos que a minha querida e destemida mulher, sem conseguir dormir, apagou gravações das entrevistas feitas a essas 2000 mulheres, para não pensar no que me puder acontecer esse dia nefasto, apagou pela noite dentro até a madrugada. No queria imaginar o que poderia acontecer comigo e os nossos amigos da Unidade Popular. Tricinco anos desde a morte do nosso Presidente e do nosso projecto de via chilena para o socialismo...

Com todo, é difícil separar o Portugal de hoje e o Chile de ontem. O texto tem duas partes entrelaçadas. A memória separa, a escrita, não, porque o Chile de ontem é o prelúdio do Chile de hoje, bem como o Portugal de Hoje é o Portugal que nasce na História de ontem. Os dois Países têm um projecto socialista, que no Chile de ontem, fica frustrado, mas é reavido no Chile de Hoje. Portugal começa pelo Socialismo, apagado no Verão Quente, e reavido mais tarde como um Socialismo morno, semelhante, em vários aspectos, a outros partidos de Centro ou Centro Direita. A experiência de Allende, é um atrevimento de marxismo-leninismo; a de Mário Soares, começa por ai, mas a queda do muro de Berlim e a divisão da União Soviética em Repúblicas Autónomas, com tradições culturais ressuscitadas, acabam, em Portugal, com um Socialismo moderado, nada a ver com o Projecto Allende e a UP do Chile. O texto de Alberto Aggio, “1973-2003. Trinta anos sem Allende”, diz em parte: A chamada "via chilena ao socialismo", vocalizada por Allende, buscava seguir um caminho institucional para alcançar o seu objetivo, isto é, construir o socialismo pela democracia. Foi um esforço inédito na história, embora, naquela época, socialismo fosse entendido essencialmente como poder popular e estatização. O presidente e a UP escolheram a via do Executivo para implementar seu programa de governo, embora Allende tivesse tentado, por um momento, o caminho das alianças no Parlamento com a Democracia Cristã, partido reformista de centro. Por outro lado, fortemente influenciados pela Revolução Cubana, amplos setores da UP e do MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionário) conseguiram impor uma perspectiva radicalizada de aceleração das mudanças rumo ao socialismo. O governo atuou como um pólo que seguia a via institucional e as bases sociais da esquerda como um outro pólo que buscou permanentemente resolver a chamada questão do poder, para implantar o mais rapidamente possível o socialismo.
No caso de Portugal, o funcionamento do PS, relatado mais em frente, descansa, entre outras, nas ideias seguintes:

PS - Partido Socialista (1973)

Fundado em 19 de Abril de 1973 em Bad Munstereifel.
A espinha dorsal do PS é constituída pelos marxistas dissidentes do PCP, desde os que vieram dos tempos do MUD, como Mário Soares a outros exilados, como os do grupo de Genebra, com António Barreto.
O segundo grande núcleo provém dos republicanos históricos, afonsistas ou sergianos, como Henrique de Barros, Vasco da Gama Fernandes e Raúl Rego, quase todos eles próximos da maçonaria clássica do Grande Oriente Lusitano.
O terceiro vector é o dos católicos dos anos sessenta, provindos da JUC e da JOC, que não começam pelo marxismo, mas pela doutrina social da Igreja Católica.
●Seguem-se alguns revolucionários das intentonas contra o regime, adeptos da acção directa, mas insusceptíveis de enquadramento pela disciplina subversiva dos comunistas, não faltando os exilados estacionados em Argel marcados por um esquerdismo intelectual quase libertário, como Lopes Cardoso e Manuel Alegre.

Em 1974 o grupo ainda invoca como inspiração teórica predominante o marxismo, saudando a revolução soviética como marco fundamental na história da Humanidade, embora advogue uma via portuguesa para o socialismo, repudiando, nos sociais-democratas, o facto dos mesmos conservarem as estruturas do capitalismo e de servirem os interesses do imperialismo .

Esta é a distinção, como diria Pierre Boudieu, entre os entrelaçados factos históricos, que eu tentei separar entre o Chile de ontem e o Posrtugal de Hoje: os conceitos usados em procura de um futuro mais advertido, que introduz uma História difícil de separar de forma cronológica, especialmente ao falarmos de ideologias em acção.

O Chile de ontem e a sua alvorada

O Chile de ontem, teve dias temidos. Dias de perseguição, dias de desencontros e reencontros. Desencontros dos que eram mortos ou desapareciam, dos que se exilavam para não cair na armadilha da prisão e uma eventual morte temida ou a perca dos bens. Uma pessoa de auto exílio nesses dias foi o antigo Ministro do Interior, Bernardo Leighton, citado no começo do texto. Ele e Anita Fresno, a sua querida mulher, foram para Itália, após fazer a sua própria Reforma Agrária: entregaram as suas terras aos inquilinos em propriedade, com escritura e acta de Notário. Eles iam viver de rendimentos do que os camponeses iam-lhes entregar, enquanto forem vivos, terras nunca tocadas pela ditadura que causou esse auto exílio e pela participação de esse o seu partido DC na trama para derrubar ao Presidente legítimo. Dias temidos.

Em 1981, dentro desses tricinco, o Presidente anterior a Allende, Eduardo Frei Montalva, morria após operação, de septicemia, operação inofensiva, mas, ao que todo indica, septicemia induzida no bloco operatório. Opina a família que apenas a justiça poderia julgar o caso. Para a minha felicidade e procura de justiça, todo aconteceu dentro dos meus definidos tricinco. Os factos são dois, a ser referidos em nota de rodapé pela infâmia, diferente, é evidente, mas infâmia no entanto, de pessoas implicadas, de diversa maneira, no processo histórico do Chile e que a História deve recordar e atribuir responsabilidades.

É evidente que eu não folgo com a morte de Eduardo Frei, mas, esteve no meio dos factos para evitar a tomada de posse do novo Presidente, esses factos que acabaram na morte do Presidente Allende e da via chilena para o socialismo. Que após tenha sido opositor à ditadura, penso que o não o redime de culpa. A História será o Supremo Tribunal do caso, apesar da minha consciência ter já ditado uma sentença, como narro ao longo das páginas deste livro... O já provado assassínio do antigo Presidente Frei, é o que denominamos o “Pago do Chile”. O segundo, fugir à justiça pela inevitável passagem dos anos e o imenso sofrimento causado pelo abandono de todos . Sem mais comentários: todo o mundo sabe o que essa ditadura foi.


Notas:


Retirado do jornal on-line, Iberoamérica, 9 de Setembro de 2003, texto completo na página web: http://www.lainsignia.org/2003/septiembre/ibe_038.htm
Retirado da página web: http://maltez.info/respublica/portugalpolitico/grupospoliticos/partido_socialista__19_de_abril_.htm , que conttém o texto inteiro e que está citado mais em frente. Com esta diferença in mente, é possível já, ver a diferença entre as vias Portuguesa e Chilena para o Socialismo. As duas tiveram que trançar, especialmente com a entrada de Portugal a CEE, hoje Comunidade Europeia, enquanto o Chile tenta destrançar a bem atada Constituição do Chile, imposta pelo ditador e apenas consegue, durante um tempo, ser governado por partidos reformistas não revolucionários, que, a seguir, e por causa de justificações para um mundo na época da Globalização, faz do Socialismo um combate morno. Talvez seja essa a diferença entre o Chile de ontem e o Portugal de hoje e mais nenhuma. A política mundial é diferente.
Refere a Enciclopédia net: Após o golpe de estado de Augusto Pinochet, porém, passou para se opor a este último, por considerar suas medidas como antidemocráticas.
Faleceu em 1982 devido a complicações ocorridas em uma cirurgia simples. Em 2005 foi aberta uma investigação sobre sua morte, pois um ex-agente da DINA (Dirección de Inteligencia Nacional, a polícia secreta chilena criada por Pinochet) informou que uma toxina desenvolvida em laboratório fora utilizada para envenenar Frei. Referido em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Eduardo_Frei_Montalva


A morte de Frei era suspeita de ter sido inducida. A família falou e hoje, já é evidente, pelo que o Presidente do Senado chileno, Presidente da República ele próprio a seguir a Aylwin, disse faz pouco dias: 24/01/2007 - 15h12
Presidente do senado abre processo por morte de ex-presidente sob regime
Pinochet SANTIAGO, 24 jan, 2007(AFP) - O presidente do Senado chileno, Eduardo Frei Ruiz-Tagle, abriu nesta quarta-feira um processo judicial para esclarecer a morte de seu pai, o ex-presidente Eduardo Frei Montalva, durante a ditadura do general Augusto Pinochet.


O senador Frei afirmou abertamente pela primeira vez, há dois dias, que o ex-presidente foi assassinado quando estava numa clínica de Santiago, em 22 de janeiro de 1982.


"É uma verdade crua e brutal: Eduardo Frei foi assassinado", afirmou o senador em um discurso por ocasião dos 25 anos da morte de seu pai, que governou o Chile entre 1964 e 1970.


A hipótese do assassinato de Frei Montalva ganhou força nos últimos dias por causa de um informe da Universidade Belga de Gent, que detectou gás mostarda nos tecidos do corpo do ex-presidente.

(Continua)


publicado por Carlos Loures às 15:00
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