Sexta-feira, 3 de Setembro de 2010
A Liberdade
Augusta Clara de Matos


Vou começar como as redacções dos meninos da primária, actualmente com outro nome.

“A liberdade é uma coisa muito boa e que foi muito difícil de obter. Depois veio um dia em que os militares fizeram uma guerra (quando emendou as redacções a professora escreveu “Não foi uma guerra, foi um golpe de Estado”) e nos deram a liberdade. Agora, já se podem dizer coisas que não se podiam dizer antes, os meninos e as meninas podem andar na mesma escola, os nossos pais já não vão para a guerra nem vão presos por dizerem coisas de que os que mandam não gostam”.

Claro está que os meninos (não me apetece dizer e as meninas), dão erros ortográficos e, a maior parte deles não sabe estas coisas todas.

Mas os adultos conhecem os conceitos de liberdade e dos direitos humanos mais consensuais e aceites em todo o mundo sem constrangimentos. Se se cumprem ou não, isso é outra história.

São eles: a liberdade de estar vivo, que é como quem diz o direito à vida. Há alguém que não concorde com isto? Talvez só os suicidas, mas, mesmo esses, tiveram que nascer primeiro.

O direito à educação: não convém ficarmos selvagens porque isso dá muito trabalho aos outros que nos rodeiam e, ainda, nos lembramos como eram os selvagens antes de nós, os civilizados, os termos educado.

O direito à saúde, embora eu jure que tenho um medo que me pelo de ir a um hospital diminuir a minha miopia.

O direito à manifestação: sim, podemos sempre descer a Av. da Liberdade nas datas a assinalar e reivindicar os nossos direitos nas ruas, cheios de bandeirinhas, ainda que, muitas vezes, já nem percebamos bem os caminhos que as negociações levaram.

O direito à informação. Bom mas, como os donos dos vários grupos não têm a mesma opinião que nós quanto a isso, ficamos sem possibilidade de ter opinião nenhuma sobre quase tudo, a menos que nos desunhemos a procurá-la, por nossa conta e medida, onde ela existe com maior fiabilidade.

À justiça já toda a gente sabe que tem direito. Não é preciso referi-lo.

E à cultura, também. Mas, como não há dinheiro para tudo, os canais televisivos, públicos e privados, puseram-se a prestar o serviço público de nos convencerem que nos concursos e talk-shows se aprende muito e que a música do Quim Barreiros e quejandos tem a mesma qualidade do que qualquer outra.

Pronto, está muito bem. Não, está quase tudo mal, mas é o que a maioria aceita – estes direitos todos - como razoável e nós todos aceitaríamos se fossem cumpridos.

No entanto, felizmente, ainda são bastantes os que repudiam a farsa que se vive em quase todos estes campos dos direitos e garantias.

Mas, e era aqui que eu queria chegar, o que se passa connosco, dentro de nós? Não viverá, ainda, connosco o menino de bibe, sentado na sala de aula com o retrato do Senhor Professor pendurado na parede? Seremos assim tão livres por dentro? Creio que não. Leva-se muito tempo a lavar a alma das grandes tragédias.

Felizmente, hoje, podemos publicar a poesia erótica do Carlos Drummond de Andrade, a Natália Correia pôde dar à estampa uma compilação da poesia erótica portuguesa porque há sempre gente corajosa, alheia a preconceitos e melindres no que toca às áreas mais naturais, e deixem-me acrescentar, mais belas do ser humano.

O nosso menino do bibe ainda tem medo do professor, das reguadas e encolhe-se em vez espetar o polegar no nariz e fazer uma momice.

Sermos tal e qual como nós somos é muito difícil, mas muito gratificante.

Se essa aquisição da liberdade, “essa dia inteiro e limpo” também não tivesse a ver com a nossa felicidade pessoal, esse direito que já vinha expresso na Declaração da Independência dos Estados Unidos da América, estaria grandemente amputada.

É verdade que a liberdade é um conceito difícil de definir, tal como a felicidade, mas antes demais do que de menos. Com responsabilidade, é evidente.


publicado por Carlos Loures às 19:30
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3 comentários:
De adão cruz a 3 de Setembro de 2010 às 20:15
Liberdades apregoadas, muito mais do que vividas!


De Luis Moreira a 3 de Setembro de 2010 às 22:42
A Liberdade (mesmo a formal, como bem diz o Adão) quando falta faz muita falta!


De augusta.clara a 4 de Setembro de 2010 às 02:39
Ahaha! Peace and love! Com muitos malmequeres.


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